Uma pessoa se torna importante prá nós, qdo somos capazes,de mesmo na sua ausência,rir ou chorar, de sentir saudade e então encontrar no baú das lembranças bons momentos prá recordar..
Quando o filho primogênito nasceu, meu pai, num rasgo de iluminação e cultura correu para o cartório e registrou-o com o nome de Planalto! A mãe demorou bons anos para digerir nome tão avesso. Já meu irmão, tão logo se entendeu por gente, passou a fazer de seu nome um verdadeiro acidente geográfico!! De longe era visto e ouvido...
Menino cigano, desde muito cedo começou a andar por esse mundo de meu Deus comprando e vendendo sonhos. No auge dos anos sessenta, com apenas quinze anos, resolveu singrar outras terras, buscar sucesso, fazer a vida, deixando a mãe chorosa, de vela acesa e apegada às orações que o protegeriam pelo mundo afora.
Era uma época de grandes movimentos políticos no país, mas nós parecíamos ilhados. Alienados, ou melhor, quase alienígenas devido à falta de informações. O que valia pra gente era o que vivíamos.
Em pouco tempo acostumamos com a ausência de nosso irmão, sócio da fome e das traquinagens. Mas como num sonho um dia ele voltou. Voltou e com ele a ilusão de dias melhores! Chegou bem no dia em que Marialu fazia quinze anos. Muitos amigos chegaram também para uma reunião dançante. Eu, com onze anos, ficava encantada com os peitos da minha irmã que apareciam num decote bem generoso! Nossa mãe deixou que fizessem cuba libre pra beber. Era o máximo! Em pouco tempo apareceu uma radiola e do bolso da jaqueta de couro do meu irmão, um anel de quinze anos!! Eu batia palmas e delirava de tão feliz!! Agora entendo que desde aquela época já gostava de festas.
O Planalto não era fraco não! Chegou cheio de modernidades. Em pouco tempo estávamos freqüentando um clube super badalado da cidade! Mérito dele que conseguiu uma cota de sócio prestando serviços como construtor no clube. Nossa mãe reciclava os vestidos sem cara e sem donos em verdadeiras obras de arte e lá íamos nós, os três, freqüentar a sociedade tão distante de nós e tão sonhada!Só Deus, meu irmão, minha mãe e dona Lídia souberam das barreiras rompidas para que eu pudesse debutar com todas as honras dadas a uma menina-moça cheia de ilusões... E lá estava eu, magra, muito magra, linda de viver ao lado do meu príncipe. Dancei a noite toda e só quando era de manhãzinha que meus irmãos descobriram que eu havia perdido os sapatos!!
Gostava muito das músicas que meu irmão cantava. Cantava forte. Cantava com sentimento, cantava e assobiava também. O assobio parecia o de um pintassilgo!! Morria de inveja, pois nunca consegui assobiar forte.
Depois ele casou, teve três filhos e morou em muitas cidades e em muitas casas. Sempre era novidade visitá-lo. Agora não vai mais ciganar... não mais vai mudar...
Foi uma experiência boa e bela ter tido você como irmão por tantos anos.
Poderia ter sido mais... Mas, qualquer dia a gente se encontra, colocamos uma vírgula no tempo e depois continuamos...

Bom te ler. Saudade sempre.
ResponderExcluirMariza,que bom que tua presença sempre me dá coragem de escrever. Sei que você vai me ler!!!!! Amiga de sempre...BJS
ExcluirBelíssimo texto! Lado poético está na veia azul!
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