Sempre é bom na época do aniversário fazer um flashback. Ajuda no autoconhecimento
Neste mês faço sessenta e cinco anos e me pergunto: onde está a velhinha que eu esperava ser nesta idade e onde se escondeu a jovem que me olhava do espelho do banheiro todas as manhãs?
As respostas chegam aos poucos... Veio à imagem uma menina de cabelos longos sempre despenteados, uma menina sapeca, agitada, que não parava quieta.
Pense numa mãe pretendendo pentear os cabelos dessa menina, fazer uma trança bonita, dar ordem no desmazelo daquela cara vermelha...
Graças a DEUS aos poucos essa agonia deu lugar a novos tempos!
Voltando às configurações atuais: a cara mudou. Há algum tempo passei a precisar de óculos para perto. Foz logo um bocado deles.. ficam em todos os lugares menos onde estou. Sempre fiz luzes nos cabelos por opção.. Como os brancos são poucos, agora continuo com luzes ... Ainda não entrei na fase dos holofotes... (privilégio que herdei de meu pai, que só começou a ficar grisalho aos 70 anos). A capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo diminuiu muito, esqueço panelas no fogo, esqueço os horários dos vôos.... Aliás, a memória, essa danada, merece um capitulo a parte: constantemente procuro determinada palavra ou quero lembrar nome de alguém e começa a brincadeira do esconde-esconde.
Mesmo com tudo isso, gosto das vantagens que a idade me confere: principalmente ser vovó e pagar meia-entrada (idosos, crianças e estudantes têm essa prerrogativa.Será que é porque não são consideradas pessoas inteiras?..)
No momento, andar de ônibus sem pagar é o máximo!!
Acordo ainda quando a noite nem terminou de transitar entre o sonho e a realidade , lá estou eu entre os muitos que entram no ônibus.Meio que dormindo ainda, com os corpos grudados aos bancos como o meu, ou em pé, no corredor, balançando levemente ou de maneira mais brusca, pois quem controla nossos corpos é o pé do motorista. Normalmente,eu caía nas curvas, nas paradas, nas acelerações...caía nos colos dos outros. Como agora posso entrar pela portada frente, vou logo me equilibrando e procurando um assento prioritário!
Meus ouvidos vão ficando afinados para a falação que há dentro dos ônibus.Sinto que estou apurando meu canal de acesso aos assuntos corriqueiros das famílias, do falar amassado,das reticências cheias de intenção, das palavras só começadas...Sei que não é só aqui! No ENEM também tem!! rsss.... A língua está descalça e despenteada, como dizia Guimarães Rosa. Fico observando: “... Chegue... eita! Bora, coisada! “Diz o pai empurrando os filhos pra dentro do ônibus."qui bixiga é esta que tu tás falando?" “Ah! sim, e quando foi o seu aniversário, desculpe, não pude ir. O namorado de Joana? Sei não se volta do brejo antes de um ano,... o que será da pobre menina, lá atirada... logo arruma outo caba, isso se já não arrumou...” e as conversas vão se desenrolando e se enrolando como um macarrão infindável, como um novelo que se embaraça infinitamente, indefinidamente, como se fossem linhas tecendo um patchwork, uma estória dentro de outra estória.
O ônibus circulando..... circulando pelas ruas, pelas avenidas, mesmo por acessos quase sem acesso ,revelando, em seus caminhos, as lojas, os apartamentos,as casas, o cotidiano tão atormentado pelos horários, pelos compromissos, pelos débitos, pais, mães, parentes, esposas, maridos e filhos. E nós circulando, caindo descendo,crescendo,caindo e levantando todos os dias...
Aos domingos e feriados aqui tudo fica diferente! Domingos e feriados o ônibus tem outra cara. Fica praieiro. O povo desce feliz carregando a matula e a vontade de cerveja, mar e petiscos.
Voltando ao assunto dos meus sessenta e cinco, estou consciente que tenho mais passado que futuro ! Qundo comentei isso com minha filha , mais que depressa ela bateu três vezes na madeira ou no computador...
Sobre estar evoluida, ficam algumas dúvidas; ainda passo quase o tempo todo julgando tudo e a todos.Tá certo que acredito, firmemente, que esses julgamentos possam servir de aprendizagem para diferenciar o correto, o bom e o menos bom,porque sei que por dentro, eu como todos, somos luz e sombra, generosidade e mesquinharia. Sei também que um dia todos seremos anjos ! Então, não preciso ficar agoniada!
Sei que a minha cota de sofrimento foi resultado de minhas escolhas, demorei muitos anos para conciliar em paz as duas partes em mim. Via tudo de uma forma que ainda não sei explicar direito: antes era como se existisse duas Rejanes ora uma, ora outra. Hoje as Rejanes estão juntas,são uma "pareia".São camadas que formam um ser imperfeito e que aprendi a gostar . A falha, a falta, esse infinito buraco escuro e estranho que vivia no meu peito foi o que me fez um ser normal, que me fez andar em frente! É exatamente assim que enquanto me mexo, às vezes desgrenhada, quase sempre de vestido longo, que em seguida fica velho de tanto usar, vou aprendendo a envelhecer,cair, levantar, transcender, escolher, renascer, amar e aceitar as muitas faces que formam essa Rejane que mora aqui dentro!
Agora, ao lado do meu companheiro, com quem tenho compartilhado as aventuras do viver, meus passos me levam lentamente para uma sensação de bem estar e hoje me lembrei dessa música que Rose,minha amiga, me mandou:
“If you choose not to decide, you still have made a choice.
You can choose from phantom fears and kindness that can kill;
I will choose a path that’s clear, I will choose freewill” *
(Rush: Freewill; Rio de Janeiro, Praça da Apoteose, 10/10/2010)
O trecho do refrão da música citada diz o seguinte: “se você escolhe não tomar decisão, ainda assim você fez uma escolha. Você pode escolher medos fantasmagóricos e bondades que podem matar. Eu escolho um caminho muito claro, eu escolho o livre arbítrio”.
E eu escolho ser feliz! Ser feliz é fundamental!
Lembrei também de meu grande amigo, Ronaldo Gravino, que com um carinho lindo de ouvir e de viver fez essa canção pro meu Gordinho e pra mim quando viemos morar no nordeste. gordinho!
Esta é a forma que encontrei pra comemorar meu aniversario com minha família e meus muito amados amigos!!