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domingo, 4 de dezembro de 2011

É um trololó...
            Trololó é um jeito de falar. Fala sem objetivo definido, como o vôo dos urubus - indo ao sabor do vento. Palavras acontecendo. Um jeito nordestino de ser. Para o trololó não existe 'ordem do dia', não há conclusões, não há decisões. O trololó não quer chegar a nenhum lugar.  Encontra sua felicidade no próprio trololó. Como andar de barco a vela em que o bom não é chegar, mas o 'estar indo'. A coisa não está nem na partida nem na chegada, mas na travessia'.
            A gente do sul tem uma fala com um objetivo preciso: ter razão. Ganhar o argumento. Convencer. Há grande chance da prosa da gente do sul terminar mal. Um ganha, fica feliz e se sente superior. O outro perde, fica com raiva e se sente inferior e assim vai num toma lá da cá.
            O grande lance do trololó é ir em frente: num vai e vem feito de um prazer permanente que não acaba. Ganhar na prosa significa o fim do brinquedo. Curtir um trololó é o grande, o mega, ultra Power segredo das relações amorosas e das amizades construídas sem pressa... Nietzsche dizia que quando uma pessoa se prepara pra casar a única pergunta importante que devia ser feita é "terei prazer em conversar com essa pessoa quando eu for velho?"
           E não é que ele tinha razão?  
          Outro dia aqui em casa a gente começou um trololó sobre o "Quero- quero". Quero-Quero é o nome de um pássaro de pernas compridas que pode ser encontrado andando. Andando feito gente pelos campos, melhor dizendo, pelos pampas gaúchos. O nome já está dizendo: quero- quero.   Querer é desejar. As crianças mais do que ninguém são movidas pelo querer.  Elas parecem ter a alma habitada por sonhos.
         Outra coisa curiosa é que o quero-quero tem a voz estridente que só!
         Meu irmão mais velho, diria  que esse bichinho cantador também é chamado de sentinela dos pampas... Sempre dando sinais de quem se aproxima.
       Quando criança, lá em casa, o pai contava a história da Sagrada Família que ao fugir para o Egito, muitas vezes precisava se esconder dos soldados do Rei Herodes. Numa dessas vezes o pai do menino Jesus pediu pra todos os bichos que fizessem silêncio, que não cantassem. Todos obedeceram prontamente, mas o quero-quero, não: queria por que queria cantar. E dizia: Quero! Quero! E tanto disse que foi amaldiçoado: ficou querendo até hoje!
     PRONTO! De um trololó para o outro é só fazer reticência e  mudar o rumo da prosa ...

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