O tempo maldoso passou depressa demais. Tão depressa que logo o irmão caçula virou um homem de cara barbada e jeito de moleque. Mesmo com o tempo andando veloz, vivemos muito tempo um na companhia do outro. Era bom ver a cara de sonho que o Polaco fazia. Pensava forte, demorava em fazer valer sua vontade, procurava dar a palavra o preço justo. Pois era de pouca fala. Nunca foi dado a lamentações, acatava os revezes que a vida lhe reservava sem reclamações. Garoto guerreiro!
Desde cedo inventava seus próprios brinquedos, fazia carrinhos de rolimã que causavam inveja a muitos! Brincava feliz nas enxurradas. Tinha sardas no nariz, cabelos loiros como o trigo. Quando ria, mostrava os dentes brancos e a pequena falha de um dente quebrado, fruto de um descuido meu que, ao alimentá-lo, deixei que caísse da cadeira de bebê! Passava os dias inteiros ao meu redor sempre me chamando de Tatinha.
Foi um coroinha exemplar apesar da quantidade de hóstias roubadas pra comer... Era tão pequeno que mal podia segurar a sineta que chamava os fiéis à reflexão. Observador nato sabia que sua vinda ao mundo tinha um sentido de união entre os elos de uma corrente.
Aos poucos, Polaco foi se desenhando como um garoto atencioso e inteligente. No colégio dava os pulos conforme lhe convinha. Nunca disse não querer estudar. De tempos em tempos dava uma arrancada seguida de espaços vagos. Claro que sempre por livre e espontânea pressão! Descobriu cedo que o papel de bom menino lhe caía bem. Então estudou só o suficiente. Seu grande fascínio por motos não permitia que outros assuntos dividissem sua atenção.
Teve várias motos. Algumas deixaram marcas profundas tanto em seu bolso como no corpo.
Penso que quando ficar velho há de colecionar chaves de fendas e parafusos entre tantas outras coisas miúdas.
De grandes e bons amigos foi recheando sua vida. Tendo o cuidado de agregar os novos aos antigos. O que mais encanta é pensar nele sempre capaz de se surpreender com a vida, de admirar-se com as coisas mais banais. De acordar bem-humorado. Não era de espantar que depois da visita dele lá em casa os quadros todos estivessem pendurados ao contrário e o relógio também!
Na casa de nossa mãe, sem culpa alguma, conseguia comer um pudim inteirinho que, de hábito, era posto na janela para que esfriasse...
Foi crescendo, rompendo as próprias barreiras e buscando o mundo. Na busca do mundo novo buscou também Zezé. Garota de olhos espertos pouca fala e muitas vontades guardadas que aos poucos foram tomando forma e cor. Vinha de muitas dores e sonhos secretos inconfessáveis.
Era com ela que eu gostava de lembrar o carnaval vivido na Bahia. Como ela me sabia! Seus olhos atentos viajavam nas minhas memórias. Podia dizer que na Bahia o carnaval era diferente. Que em quatro dias a vida era diferente. A gente era diferente. A mortalha ou abadá era a única moda válida pra homem, mulher, criança, rico, pobre. Todo mundo sambando na avenida. Não havia luxo.
Havia povo brincando. Blocos colorindo a avenida, trio elétrico subindo e descendo. Som de arrebentar os tímpanos, luzes piscando, girando. Povo correndo atrás. Gente sambando nas calçadas, nas barracas, nas mesas, nas sacadas. Tudo na cidade se transformava! A cidade era do povo. A única festa do povo que conheci.
Na quarta feira de cinzas, como os baianos, também eu ficava com o corpo doído, pés lanhados, cortados de cacos de garrafas, bexigas de água, roxos de pisadas... Doíam mais com a nostalgia!!
Naquele carnaval me acabei na avenida, no salão. Corri atrás do trio elétrico, larguei as sandálias na avenida. Me embebedei de cerveja, subi ladeira debaixo de chuva, me perdi na multidão, fui pisada, acotovelada, empurrei, pisei e acotovelei na alucinação do trio elétrico.
À noite sambei descalça na chuva encharcada até os ossos, toró caindo e a gente lá, todo mundo sambando. Era carnaval. O samba não podia parar, a gente não podia parar, até quando houvesse um alento.
Depois olhava pros colares no chão, restos de estrelinhas de botar na cara, a roupa imunda, fedida, meus pés feridos e me dava um nó na garganta.
Talvez isso nunca faça sentido pra quem nunca correu atrás de um trio elétrico, nunca tenha sambado debaixo de chuva, descalça na avenida, mas Zezé me sabia bem! Contava pra ela que o samba enredo do bloco era feito e ensaiado em barracos forrados de plástico preto de lona de caminhão.
Que nas paredes havia faixas de um tecido sujo dizendo qualquer coisa assim; “pra vereador vote em Marcelo Leite”. Desenhos de frutas tão distantes das mesas do povo. O surdo marcava o compasso. A gente ria uma alegria só nossa. Éramos todos operários, conhecíamos oito horas de trabalho por dia. E se a nossa comida era cada dia mais difícil de ser comprada, ainda restava a cachaça que conseguíamos comprar e o samba que podíamos fazer porque nascia espontâneo.
Todo mundo sabia bem o que era um crime e o que era uma festa! Como se fazia um e outra. Era fácil dividir nosso copo com quem sorria pra gente, como era fácil agredir quem atacava!
Gente conhecida enchia meu copo, ria do meu samba desajeitado. Me ensinava a sambar direito. Chegava em casa o dia rompendo o cerco das nuvens e pintando de azul claro uma nesguinha de céu e eu dormia com os pés negros do lodo já ressecado entrando na pele.
Pois é, a Bahia era um monte de coisas ao mesmo tempo.
Sempre que penso na Bahia, Zezé surge em minha mente fazendo uma ponte com o passado. Sempre teve cara de guardadora de segredos!
Estava escrito que ela teria um marido fofucho e uma filhota única. Que ela seria uma onda a mais que se levantava. Um vulcão que iria dormir enquanto o mundo fervilhava. É claro que isso nunca a impediu de fazer um Tssunami particular!Ah como amo!!!


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