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domingo, 4 de dezembro de 2011

Na terra do Tio Sam

A neve chegou! Os flocos caem do céu, fininhos, brancos...  O vento faz os flocos dançarem em todos os sentidos. Os telhados de ontem, hoje são brancos como açúcar. Já posso escrever meu nome nos carros dos vizinhos. Os esquilos sumiram todos! Os vizinhos da frente saem de casa sonolentos, atrasados “pro trampo” e voltam correndo em busca de gorros, luvas e roupas quentes. Parecem grandes ursos de crachás no peito.
Estou pensando em trocar o pijama e pantufas por roupas iguais às dos vizinhos e ensaiar meus primeiros passos no tapete fofinho... Fico imaginando como será o frio lá fora. Como será pegar a neve nas mãos, se devo apertá-la ou não... Ou deixar fazer uma montanha ou um montinho em minhas mãos e daí sim, apertar. Primeiro devagar e depois bem forte... Até fazer o nariz do boneco... Acho melhor começar por ele... Até porque, uma cabeça ou um corpo vai fazer de mim uma boneca de neve antes de terminar a obra a tanto tempo sonhada! Desisto! Lá fora ficou a cenoura, o cachecol e o sonho vai ficar guardado em algum arquivo qualquer...
Os flocos aumentaram, caem com mais força e formam uma nova moldura nas janelas dos carros, escondendo as borrachas.  O sol frio e branco só serve pra dar brilho à neve que cai e é levada pelo vento até se agruparem em flocos, uns aos outros, formando um imenso tapete branco.  Outra vez vem a vontade de sair para brincar lá fora...
Fico imaginando o dia que passei em Boston com a neve de hoje... O frio e a chuva cortavam a pele feito gilete que passa de raspão. A gente corria atravessando parques à procura do carro.  The Temple Street era só uma rua só, numa cidade que anda, que corre, se transforma e está sempre em construção. As informações são desencontradas, nosso inglês também. Sabíamos que o carro estava nos esperando em algum lugar qualquer, com uma multa, é claro, denunciando nossa ignorância para ler placas...
Milhões de passarinhos invadem minha janela procurando uma espécie de alimento que os galhos secos produzem. Voam em bando. Agora o sol já marcou sua presença, os telhados começam a aparecer com a cor marrom, a neve derrete depressa porque o sol venceu e ela, tímida, bateu em retirada reconhecendo o sol como astro-rei. Já posso fazer tudo o que minhas vontades ensaiaram... Mas, acho melhor esperar a neve que não tarda.
Com uma rapidez espantosa, o tempo mudou e a neve voltou com força total!  Aqui dentro o vinho e o Bob Marley que ouço me levam pro Havaí. Lá fora, a neve me traz pro aqui...   Flores delicadas que se desfazem ao tocarem minhas mãos quentes.  O frio faz meus dentes doerem. Acho que não devo dar risada para a  neve...
Minha casa e minha cidade, distantes, nesse dia de dezembro, às vésperas do Natal, me fazem entender que é um tempo de muitos cuidados com os sentimentos, é tempo de muita ternura... Com certeza, não suportaria passar a noite de Natal longe do aconchego de minha filha. Por isso, atravessei o mundo e atravessaria setenta vezes mais sete pra ver sua carinha cheia de luz e de sonhos... Se for preciso, aprendo a porra dessa língua amanhã cedo! The book is on de table, intoduce myself, excuse-me, may I change?  ...so one... have a nice day! I’m looking for... behind... the next... corner... Quase quinze dias de TV americana!hahahah
Sou uma turista feliz que adora sair e principalmente ficar em casa “janelando” como diz Roberto Carlos, rei cantor que me acompanhou em todos os momentos de paixão..
Na verdade, nessa terra maluca adoro um shopping! Aperto e experimento tudo; casacos, gorros, luvas, separo artesanatos, fico perdida entre as prateleiras de utensílios domésticos, adoro potinhos! Adoro ferramentas!
Decidi que posso fazer daqui o meu refúgio onde a mão do mundo não pode me alcançar...
Nas ruas e nos espíritos, reinam um clima de simpatia e de cordialidade, as pessoas de nariz e olhos brilhando por trás dos cachecóis e gorros exibem um jeito de que a paz vai durar para sempre e não só no Natal.
Fico imaginando que os imigrantes atravessam vários estágios num país como este; no primeiro ano, pensam que vão morrer sem ver os que ficaram. No segundo ou terceiro, percebem que não são mais os mesmos de antes, como se a vida tivesse mudado de ritmo. Vivem mais apressados, alguma coisa lhes queima por dentro, o coração bate de um jeito diferente e ao mesmo tempo se sentem indiferentes... Depois, chega o momento que já não sabem mais o que está acontecendo ao seu redor. Às vezes, esse momento só chega cinco ou dez anos depois. Às vezes, já chega aos primeiros meses. É bem diferente dos americanos que já parecem trazer os Estados Unidos dentro da mala! Ao contrário de mim, que além da saudade da mãe e do meu cachorro trouxe a saudade guardada da filha que me faz atravessar o oceano, aceitar diferenças de tempo, de clima e de sonhos... Sonhos sérios e silenciosos como todos os grandes sentimentos que fazem as coisas velhas e mofadas ficarem enterradas para sempre...
Da janela, vejo que a neve já parou. A paisagem começa despertar. As árvores se espreguiçam, parece que estalam os ossos saindo do coma.  Também estalo os meus e procuro pensar no que nos leva a aceitar as mudanças da natureza, de nossos comportamentos e de quais as fórmulas que nos fazem aceitar a realidade, mesmo sabendo que não vamos receber os louros da glória só porque nos conformamos em sermos vaidosos, humildes ou egoístas, carecas, velhos ou gordos... A gente não recebe prêmios em troca dessa tomada de consciência. Devemos nos suportar tais como somos, este é o único segredo.  Suportar nosso caráter, nossa natureza profunda com todos nossos defeitos que muitas vezes não são corrigidos nem mesmo com toda experiência e boa vontade. Aí precisamos aceitar que as pessoas que amamos não retribuam nosso amor, ou pelo menos, não como gostaríamos. Mas o que é importante, é descobrirmos que mesmo que conseguíssemos tudo na vida, se vencêssemos todas as dificuldades, a única coisa que jamais poderíamos fazer é mudarmos os gostos, as preferências e os ritmos da vida dos outros. Seria anular a diferença que caracteriza a pessoa.  É justamente esta diferença que conta! É por essa diferença que continuamos ligados aos outros...
Percebo, é claro, que essas divagações são frutos de um domingo chuvoso e frio.  Ao desistir de minha caminhada, fiquei mais tempo com minhas lembranças.
 Aos domingos eu amplio o foco da minha visão, ultrapasso as paredes da casa e quase posso ver pessoas sentadas, morenas, vestidas com roupas domingueiras. A mulher de saltos altos e de cabelos presos que surge à porta recém-aberta confere com minhas suspeitas: com a bíblia e a bolsa, vai ao culto. Na outra casa chega um casal animado, esfregando as mãos pra espantar o frio, da boca deles sai fumaça... Um cachorro feliz desce do carro e se enterra na neve ainda macia. Não sei dizer quantas pessoas saíram ou entraram. Elas são apressadas, dão recados ou recebem e vão-se embora...

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