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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

No ônibus

          Olho pela janela do ônibus à procura de novidades, que devem estar em algum lugar, com certeza distante das caras que trazem os trabalhadores no início desta manhã, quando a máscara do sono ainda não os abandonou e as linhas de expressão parecem linhas mesmo!
        Enquanto a noite ainda nem terminou de transitar entre o sonho e a realidade, entre o desejo e o possível, entre o que se fez e o que se fará entre o que se pensou e o que ficou,ali estão eles, meio que dormindo ainda, com seus corpos grudados aos bancos como o meu ,ou em pé, no corredor, balançando mais levemente ou de maneira mais brusca, pois quem controla nossos corpos é o pé do motorista, as curvas, as paradas, as acelerações e o trânsito, que se mistura com as buzinas.Estamos todos nós, juntos, talvez escutando aqui ou ali os barulhos que chegam de fora ou talvez  esse barulho é que serve para afinar nossos  ouvidos em canais de acesso aos assuntos corriqueiros das famílias,  do falar amassado ,das reticências cheias de intenção, das palavras só começadas... A língua está descalça e despenteada. Mais que em outros lugares do Brasil, acho. Fico observando “... Chegue... eita! Bora, coisada!Diz o pai empurrando os filhos pra dentro do ônibus."qui bixiga é esta que tu tás falando?" “Ah! sim, e quando foi o seu aniversário, desculpe, não pude ir. O namorado de Joana? Sei não se volta do brejo antes de um ano,... o que será da pobre menina, lá atirada... logo arruma outo caba, isso se já não arrumou...”  e as conversas vão se desenrolando e se enrolando como um macarrão infindável, como um novelo que se embaraça infinitamente, indefinidamente, como se fossem linhas tecendo um patchwork, uma estória dentro de outra estória.
           Os ônibus são pessoas esperando o que virá. São circulares em si mesmos,  eles vão pelas ruas, pelas avenidas, mesmo por acessos quase sem acesso e vão revelando, em seus caminhos,  as lojas, os apartamentos residenciais ou mistos, os serviços, os trabalhos, o cotidiano já tão atormentado pelos horários, pelos compromissos, pelos débitos,  pais, mães, parentes, esposas, maridos, filhos, e toda a parafernália pessoal , amorosa e financeira na qual circulamos, caímos, descemos, crescemos, levantamos todos os dias, talvez menos aos sábados e domingos para alguns mais privilegiados,isso porque nos domingos e feriados o ônibus tem outra cara. Fica praieiro. O povo desce feliz carregando a matula e a vontade de cerveja, mar e petiscos.
       A segundona está ainda longe e ninguém se importa com a ressaca.  Talvez dê tempo para um cochilo no ônibus da segunda isso porque hoje é domingo e SER FELIZ É FUNDAMENTAL

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