Aqui sentada nesta poltrona preta, cheia de voltas que encaixa meu corpo como o colo de minha mãe, fico curtindo pela janela os chalés todos iguais pintados de terracota com as bordas e janelas brancas, telhado marrons com telhas parecendo pequenos tijolos. Posso ver cortinas brancas de voile.Floreiras com algumas flores ainda resistindo ao frio e neve impiedosos!
O tempo está cinza... Pequenos esquilos correm rápidos bicando tudo o que vêem e fogem sempre que tento me aproximar com a câmera.
Na verdade, todo condomínio é formado de pequenos chalés iguais ao da minha filha...
Um garoto, tiritando de frio e cutucando o nariz, bate à porta da casa em frente com muita impaciência e agora já com raiva...
A TV me chama para um mundo estranho que não é o meu. Tento me acostumar com a língua que já estou ouvindo há mais de duas horas e por fim, acho que é a historia de uma garota que ganhou um carro novo do pai e sai pra mostrar aos amigos. Dá várias risadas, dirige margeando uma praia que jamais pensei existir tamanha beleza!
Então penso na minha Ana que trabalha num “Dunkin Donuts” de uma cidade vizinha e vem fazendo um trajeto por caminhos lindos! Deve estar estourando por aqui! Aí a gente vai comer uma caldeirada de frutos do mar que iremos fazer, enquanto tomamos uma cervejinha, lembrando dos sábados do Brasil e de comidinhas tão nossas.
O sol aparece tímido como meu inglês que ensaio aos poucos. Esta língua me assusta. Não sei ao certo que sentimento me envolve... Não lembro do Brasil. Há um sentimento romântico no ar. Penso que as pessoas são outras dentro de suas casas. Agora é tempo de ternura... Estar aqui me traz uma segurança desconhecida. Me vejo com outros olhos.
Tudo é diferente do que conhecia; meu genro de olhos verdes intensos me traz a certeza que as estrelas brilham no escuro e que o céu já vai ficar azul também. Gosto de ver seu despertar para este mundo novo e assustador. Mundo tão distante do meu... Fico olhando seu jeito e tentando entrar em seu pensamento sem deixar rastros de curiosidade... Agora mesmo, deve estar ralando atrás de uma chapa quente, lembrando gordura e cheiro de ovos e bacon. Cheiros bem diferentes dele...
Penso na minha Ana desvendando mistérios e topando desafios entre tantas mesmices de donuts. Em busca de uma mulher vibrante, instigante, que só vai se dar conta bem depois, que essa mulher já existia dentro dela.
O AL pinta casa e sonhos que nem sempre são sonhados por inteiro, pois, nessa terra ele é só uma metade.Falta a alma gemea. Ainda assim, há uma vontade imensa que teima em não calar, em ir à luta!
Eu, cá da minha janela, consigo atravessar a rotina certeira a que estou acostumada e me preparo pra ver o dia anoitecer, às três horas da tarde!Trazendo consigo as mudanças confusas de sonho com fusos horários e climas muito loucos. Dizem que logo a neve vai chegar...
Hoje ganhei um tênis de caminhada, o máximo dos máximos: tem seis amortecedores, leve, moderno, tração nas rodas traseiras. A Ana sabe das coisas!Já andei por todo o bairro testando meu pisante novo que só falta falar. O vento frio batia na minha cara e me lembrava o minuano, vento do sul, tão comum na minha infância.
Tive vontade e saudade da garota que fui... Aquela garota que imaginava que bem lá longe, no horizonte tinha uma placa escrita: - FIM DO MUNDO e se a gente chegasse lá corria o risco de cair fora dele!
Aqui a natureza se transforma muitas vezes por dia. Agora o sol brinca de esconde-esconde comigo. Embaixo da minha janela, uma árvore de outono, com galhos secos e outra ainda toda verde fazem um par de contrastes como tudo o que vivo nesse momento. As nuvens travessas ficam fazendo desenhos incríveis! Ainda há pouco, vi se formar um cavalo marinho que logo se transformou numa grande minhoca. Já não sei que estação é esta. Só sei que logo minha filha chega cheia de vontades...
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