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domingo, 4 de dezembro de 2011

Meu quatro patas

                       Meu quatro patas
Ypon, meu cooker preto e branco orelhudo, guloso e curioso passava o tempo todo me olhando com um olhar tão carente que às vezes, chegava a pensar que ele sabia o que eu estava pensando. Em casa todo mundo sabia que cachorro era feito pra se festejar!  Sem festa e sem brincadeira o cachorro murcha, fica sem graça que nem planta sem água.
É claro que Ypon tomou conta da casa e de todos. As coisas que ele fazia tinham uma nota pessoal. Recuso-me acreditar que ele tivesse herdado dos pais os dons que achávamos tão genuínos nele como erguer as orelhas sempre que era convidado para ir à casa da “Bisa”.
Adquiri o hábito de conversar com ele horas e horas, à sua e a minha maneira. Adorava ver seu olhar revelando a vontade de comer coisas açucaradas como bolacha de mel.
Ypon era da minha filha que casou e foi morar em outro país. Nós dois sentimos juntos o ninho vazio... Então fomos nos aproximando e tecendo novos planos !!
Decidimos morar no Nordeste!  Vida nova com o amor antigo que também passou a fazer parte da nossa família.
Nossa vida foi recheada de momentos lindos! Ypon fazia parte de todos nossos programas: fazia belas caminhadas pela praia,nadava,curtia com a gente as noites de lua cheia à beira mar... Viu também o por do sol ao som do bolero de Ravel na praia do jacaré. Conheceu Porto de Galinhas
Um dia,quando eu estava viajando, recebi um email e meu ar aos poucos ia sumindo dos pulmões!
“Ypon nos deixou...fez sua grande viagem..Saiu passear, teve um mau súbito e não resistiu, provavelmente foi coração . Triste pela perda dele e de não conseguir controlar o egoísmo de saber perder.Por outro, lado vem o alento da certeza de que ele foi um cara feliz até o último momento. Saiu passear feliz pela orla, viu o mar, caminhou, viu um monte de coisas e viajou suavemente do lugar que ele mais gostava: a rua. Vamos lembrar das incontáveis alegrias que ele proporcionou a todos durante mais de uma década de pura “traquinagem, atenção, alegria, companheirismo, dedicação e tudo mais . .  “NADA NOS PERTENCE, NEM NÓS MESMOS” Teu marido
                Faltou o ar... Uma dor que não sei dizer e que só sente quem já passou por isso. Foi assim os pêsames mais sentidos que já recebi
               Logo a seguir recebi outro email:
                 “Estou aqui chorando, mas por outro lado conformada porque foi sem sofrimento e uma longa vida linda. Ver nossos amados sofrerem é muito pior! A gente acha que sempre pode haver um jeito (estou falando em relação ao meu bichinho que sofreu, mas hoje já acredito que foi na hora certa).
                  Hoje, agradeço a Deus por estar distante naquela hora  com certeza não poderia lidar com essa despedida... .Ainda bem que temos homens/amigos generosos por perto pra lidar com essa parte terrível.
                   Outra coisa que eu acredito de verdade é que existe o “céu” dos cachorros, eles têm alma, e agora Ypon e Baruk devem estar lá sem humanos por perto pra atrapalhar a interação.. SINTO MUITO ! Ana Lídia
             E as dores eram compartilhadas. Agora era a vez da Zezé.
"Nossos quatro patas aparecem em nossas vidas de várias maneiras:uns através de petshops,outros,por uma vizinha bem intencionada,outros das marquises das ruas. Não importa o lugar onde os conheçamos, um momento se faz mágico: a troca de olhares entre aquele quatro patas e nós.
    Os olhinhos espertos e o tamanho de um bichinho de pelúcia, que mal cabem na palma da mão, nos deixam extasiados. Achando que nunca crescerão, deixamos que façam as suas vontades. Comem os cadarços de nossos tênis preferidos, destroem nossos tapetes arraiolos que demoramos meses confeccionando. Pulam nas nossas visitas com as patas sujas que andaram no quintal e mendigam com os olhos um carinho, bem na hora que a gente chega do mercado cheia de pacotes.
      Mas crescem. E nossos sustos com eles também. Passam mal do estômago no dia seguinte ao nosso churrasco por roubarem aquele pedaço de carne que ninguém viu caído ao pé da churrasqueira.  Ao erguerem a pata chorando e não colocá-la no chão ao serem picados por um inseto perto do lixo que tiveram o prazer de fuçar todinho, de soluçar ou engasgar pela gulodice tão própria de todas as raças.
     E envelhecem. Viram sombras nos nossos calcanhares. Mais calminhos e menos peraltas já aceitam um carinho prolongado.  Já querem tomar um pedaço de nossa cama e o nosso travesseiro, por direito adquirido ou quem sabe, usucapião. Já arranham a porta ou resmungam impacientes a fim de nos avisarem que é chegada a hora do xixi.Percebem nossa troca de humor que às vezes nem nós nos damos conta. E querem aconchego. E sabemos que eles entendem que eles nos amam e que eles nos protegem.
      E morrem. Partem da mesma maneira que vieram. E mais um momento mágico se faz presente. É a saudade, a lembrança do nosso quatro patas que durante tantos anos fez parte da nossa vida. E vamos contar histórias, olhar fotos e bem dentro de nós sempre teremos a certeza que nosso amiguinho  terá para sempre um lugar em nossas vidas.
Um cheiro Pipo, onde estiver”
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