Minha Chanty nasceu loira, faceira, conversadeira, regateira, os olhos azuis, infantis e ávidos eram capazes de guardar imagens e fantasias suficientes para povoar centenas de cabecinhas sonhadoras. Não tinha medo de nada. Assim que pôde, começou a escrever sua história. Dos avós curtiu tudo o que havia de bom! Infância rica de fantasias e afetos! Muitas vezes o reino de faz de contas virava realidade por conta de sua vontade.
Era cria das camisolas de retalhos, de bolachas pintadas, de ninhos com ovos escondidos por entre as roseiras. Batia tantas palmas para o ninho encontrado que todo mundo acreditava na magia de seu encantamento e até no coelho da páscoa.
Tinha a manha de ditar suas próprias cartas quando não sabia ainda escrevê-las. O teor era mais ou menos assim: “vó, vai cair de mim cinco dentes!” Escolhia suas roupas. Tinha algumas preferências, como uma pantalona verde limão e uma saia vermelha de pregas.Também uma bota branca.Sempre que podia, lá estava toda colorida!
As férias eram passadas na casa dos avós. Acordava logo cedo e começavam as reinações... Batia na porta do banheiro dizendo: “vô, abre logo, não é ninguém. É a Cocota. Preciso fazer xixi porque já tá saindo uns pinguinhos .”
Chanty foi crescendo e com ela a vontade de ganhar o mundo. Ganhar o mundo exigia muitos desafios! Começou desafiando o ventre de sua mãe, depois precisou abandonar os amigos e fazer novos em plena adolescência, mudou de cidade sem querer.Depois saltou de pára-quedas querendo, brincou de miss, teve seu próprio negócio, em tempos bicudos que só vendo! Mudou de novo, mudou de amor, só não mudou de nós!E agora, descobrimos juntas que é o tempo da ternura. O tempo de afetos corajosos.
Sei que não posso atribuir a ela outro mundo de imagens além do que já existe em sua alma . Simplesmente sei que no tempo certo olho em seus olhos e vejo minha Chanty, neta de Aurora, que mora lá dentro.


Nenhum comentário:
Postar um comentário