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domingo, 4 de dezembro de 2011

Marialu

         Lembranças são feitas pra serem guardadas dentro de corações e de livros... Devem também ser guardadas em palavras...
A danada tem tantos nomes como vidas! Rostinho delicado, cabelo trigueiro e cacheado.
“Menina! Menina! De onde nos conhecemos?” Com certeza de um horizonte do tempo longínquo de outras vidas. Viajamos em tempos diferentes. Ela chegou antes, chegou no tempo dos abraços e dos afagos.
Faceira, bonita e sonhadora. Logo escondeu seus encantos atrás dos tons rebeldes da adolescência que chegaram com força e ela marcava seu território a faca, ferro e fogo!
Tinha uns rasgos de descuidos e a menina travessa aparecia cheia de idéias geniais para um tempo tão bicudo como o que vivíamos. Inventava mil brincadeiras. Brincávamos de salão de beleza. As faces, a gente pintava com papel crepon vermelho. Fazia permanente no meu cabelo com pente e sabão, desfiando-o. Tentativa fracassada. Depressa meu penteado era transformado em papelotes, para serem desmanchados no outro dia.. Não sei o que era pior: o estrago do cabelo ou a fúria de nossa mãe. Logo todas as broncas eram esquecidas e sentadas no batente da porta tocávamos gaita de boca com um pente e um papel de seda... As músicas eram desafinadas como nós, mas mesmo assim havia magia.
A mãe vestia a gente com vestidos que tinham a mesma cara. Só mudava a ordem dos babados. Os meus tinham um ar mais infantil, mas eu achava que éramos bem parecidas. Só descobri que ela era mais bonita, quando nossa madrinha escolheu-a pra morar com ela na cidade.
   Na cidade aprendeu a comer sem se debruçar sobre a mesa, a sentar com as pernas fechadas e outras tantas que fazia questão de ensinar quando vinha nos visitar.
Naquele tempo o tempo passava muito devagar! Como devagar a gente ia aprendendo as coisas. Então o remédio era ir às tontas como formigas numa casca de laranja
 Cresceu e se fez moça bonita, de peitos bonitos e invejáveis aos olhos da família extremamente conservadora. Motivo pelo qual começou a transgredir as normas e costumes. E eu, cá do meu canto, dei graças a ela que removeu as pedras e deixou meu caminho mais sereno e moderno! Foi um tempo de sofrer, de se esconder e de aprender.
r tudoém soie apaixonou, chorou, amou e esperou. Sua esperança foi minguando devagar, se despedindo dos pedaços de si mesma e no fim era tão pequena a esperança que acabou. Então, minha irmã cansou de sofrer!
 Que bom!Era tempo de ser feliz!
Como ela era do tempo da cantiga de roda cotia, dos vaga-lumes presos nas garrafas para clarear as noites escuras e cheias de desejos, enfrentou a fúria dos tempos e do destino, traçou com passos laços os movimentos complicados numa corda bamba que separava seu ontem do amanhã...
Para saber de si foi preciso que ela se refletisse no olhar sonhador da filha muito amada que num dia de profunda magia veio ao mundo para dizer que viver era preciso. Tão preciso como navegar! Como voar!Como sonhar! Como amar!
Criou um mundo todo seu. Às vezes, eu quase chegava a adivinhar seus passos e compassos dentro de sua casa. Ouvia sua voz descompromissada de ritmo e de tudo cantando com a Betânia.  Guardava sua mente trabalhando em circuito fechado.   O computador, seu mais novo passatempo, causador de grande ciúme de nossa mãe, servia para afogar a saudade da filha distante. Tão longe que, às vezes, ficava me perguntando de onde as mães criavam coragem para viver longe dos filhos? O que as mães faziam com o tempo que reservavam para lamber suas crias? Se bem que sua cria já nascera lambida e pronta!
Então a Maria virou Lucila e logo depois Marialu.
 A mãe tornou-se mulher !
 A mulher virou praieira!
 Colorida!
 Faceira !
Nordestina!
Que bom que a gente nunca se perdeu!
Que bom que você é minha irmã!!

Um comentário:

  1. Que bom que vocês duas pertencem ao jardim da Aurora, sempre úmidas e floridas.
    Beijos dobrados.

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