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sábado, 13 de outubro de 2012

A fila anda

              A fila anda. os os tempos de abuso sentimental acabaram.
"Quem me apresentou à expressão foi Fábio Júnior, o cantor. Ele tinha acabado um casamento relâmpago de artista e sua explicação chegou aos jornais com franqueza desconcertante: “A fila andou”. Por alguns segundos eu não entendi, depois fiquei passado. Como alguém diz uma grosseria dessas? E a consideração pela outra pessoa, não existe? 
Isso faz tempo. Desde então, a expressão se banalizou. Toda mundo fala e todo mundo escreve. Só nos últimos dias, deparei com “a fila anda” na capa de uma revista e numa propaganda de perfume. A metáfora pegou e parece que vai ficar no nosso vocabulário e no nosso comportamento: as filas andam mesmo, de forma cada vez mais rápida. Ninguém quer ficar parado. 
Antes de continuar, uma confissão: eu tenho dificuldade com esse tipo de andamento. Para mim a fila anda bem devagarzinho, quando anda. Às vezes fica parada por muitos anos, e é bom assim. Dá tempo de conversar, relaxar, ser feliz. Ficar sozinho, sem fila nenhuma, é meio aflitivo, mas acontece – e de vez em quando é necessário. Se você corre de uma fila para outra, ou fica preocupado em manter cheia a sua fila, acaba entediado ou perdido ou meio desesperado. Para mim não serve.
Apesar disso, reconheço virtudes na idéia de que a fila anda.
A primeira é lembrar a mim, a você e a todo mundo que os tempos do abuso sentimental acabaram. Se você não tratar as pessoas direito, elas irão embora. É simples assim. Todos têm opções e contam com o amparo das leis e dos costumes para procurar o melhor para si mesmo. A oferta afetiva é enorme. Em toda parte há gente disponível e atraente, de todos os tipos e de todas as idades. Saber que a fila anda ajuda a prestar atenção na pessoa ao nosso lado. Quem gosta cuida, diz o clichê. Mais do que nunca ele está certo. 
Outra coisa positiva na expressão “a fila anda” é que ela nos põe de frente com um aspecto inevitável da realidade: a transitoriedade de boa parte das relações. A depender da nossa idade ou do meio em que a gente vive, a fila vai andar mesmo, o tempo todo, goste-se ou não. Faz parte. Quando a gente é adolescente, acha que o primeiro amor vai durar a vida toda. Não dura. O mesmo acontece na juventude. A gente se apaixona, se desapaixona, dispensa, é dispensado, sofre, faz sofrer. A fila anda da mesma forma que a vida anda – até que algo importante a faça parar. O que há de errado nisso? Nada. 
Mas há na nossa cultura sentimental um componente masoquista que não combina com a simplicidade da fila que anda. Temos a expectativa equivocada de que todas as emoções serão eternas. Quando as coisas acabam, nos despedaçamos. Em vez de olhar para frente e tentar recomeçar, nos achamos no direito de empacar, insistir, implorar, perseguir. Temos a vocação do melodrama. A dor inevitável das rupturas é ampliada pela sensação de injustiça. Nos achamos vítimas do outro, e há um prazer medonho em sentir-se assim.
Tem gente que acha isso natural, eu acho que é aprendido. Acho que de alguma forma dizemos para as nossas crianças que amor é para sempre e que o fim de uma paixão equivale ao fim do mundo. As músicas dizem isso, as novelas sugerem isso. Há uma indústria cultural gigantesca que se alimenta da dor de cotovelo e da sensação de abandono. A troca de parceiros e a experimentação da juventude, que poderiam ser celebradas como bons momentos da vida, viram uma preparação angustiada para o compromisso, a busca apressada do verdadeiro amor, um breve período de promiscuidade que antecede a escolha definitiva.
Por trás da nossa atitude descolada, há expectativas que não são modernas nem liberais. Por isso nos apegamos a quem nos tiraniza (“ele me ama”) e desabamos quando a fila anda. Por isso queremos morrer. É claro que eu estou exagerando, mas não muito.
Nossa breguice sentimental, que é o oposto da “fila anda”, leva a situações esdrúxulas. Outro dia presenciei um amigo de 26 anos consolando um cara da idade dele que falava em se matar por ter sido deixado pela namorada... Onde ele aprendeu esse tipo de comportamento?
As pessoas não falam em se matar quando são reprovadas no vestibular ou demitidas de um emprego bacana, como acontece no Japão. Mas acham natural pensar essas bobagens depois de um pé na bunda. É isso que eu chamo de breguice - e não tem o menor cabimento.
Quando se considera isso tudo, não acho tão ruim dizer que “a fila anda”. A expressão pode denotar frieza e desrespeito pelos outros. Pode ser sinônimo de uma atitude egoísta e utilitária. Mas pode, também, sinalizar uma percepção saudável e corajosa das relações humanas. A fila anda, a gente avança, lá na frente descobre coisas melhores. Sempre de cabeça erguida. Melhor do que ficar choramingando, né?"
Ivan Martins

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Tributo à Aurora de sempre ...



         Olhos de cores estranhas; cinza pigmentados de marrom. Donos de muitos mistérios que guardavam marcas profundas de uma solidão de outras vidas.  Quando jovem, seu olhar era sombreado por grossas e escuras sobrancelhas... Ah, como tínhamos medo daquele olhar que tudo via! As tranças cinza-escuro enroladas em um esmerado penteado eram tudo o que a sua pouca vaidade permitia.
        Sua saga começou aos cinco anos quando perdeu a mãe. Perda irreparável não aceita e com gosto de traição.
        Penso que devia ter uma lei decretando que  mãe não devia acabar nunca!   
        Temperamento muito forte... Seu coração vinha acumulando mágoas da infância somadas com as da mocidade.  Passou infinitas dificuldades!     Ao casar juntou as mágoas antigas às novas e foi tocando em frente!
        A mãe preparou literalmente a gente dentro dela. Teve cinco filhos que somados ao marido a conta passou a ser seis.    
         Contava sempre que sua primeira casa própria nasceu do chão, da natureza, construída com o material que estava lá. Feita de maneira intuitiva, quase como as abelhas faziam sua colméia. Era uma casa de taipa. As frestas eram bem fechadas pro bicho barbeiro não fazer seu ninho.  
         Com o passar do tempo ficou perita nos acessórios: tinha também na casa um fogão à lenha e uma vassoura daquelas de gravetos(guanchuma). 
        Tinha uma árvore grande perto. Era uma árvore de erva mate. Lá ficava o poço e também o tanque. Preso nos galhos de erva mate um cesto de vime, berço do irmão primogênito, que dormia embalado por tangos que a mãe cantava rasgando o peito 
"... fumando espero aquele a quem mais quero... enquanto eu fumo, depressa a vida passa e a sombra da fumaça..."
         Com quarenta anos conseguiu terminar o curso de magistério! Mérito e glória dela! Sorte a nossa, pois passamos a ter uma mãe culta, além de todas as outras qualidades que já tinha. Assim nossa vida foi mudando lentamente.  
          Não sei bem como as coisas aconteciam quando éramos pequenos, onde mãe buscava forças, alimentos, tempo e vontade de tocar em frente. O certo era que sempre vencíamos as dificuldades, nos enroscávamos uns aos outros e esperávamos ser sacudidos por aquela mulher de vinte mãos.
         A música sempre teve o poder de tornar o tempo sem hora ou lugar, como dizia Mariza, uma filha do coração das muitas que teve. "... Ela cantava o ontem com gosto das manhãs frescas e perfumadas, seus cabelos brancos, penugem de um sabiá teimoso. A teimosia dos que adorava viver... Seu canto era um gorjeio maduro e solitário. Ela não tinha tempo, não tinha horário, não tinha limite, era luz que não se acabava... Mesmo quando soprava o vento. Era chuva que desabava e tinha veludo escondido na pele enrugada! Era água pura, ar puro, era beijo na cabeça dos filhos que chegavam buscando mel que era sempre farto!"
        Aos oitenta anos começou a viver as primeiras orgias noturnas... Fazia parte de um grupo de amigos que se reunia uma vez por mês para ouvir e fazer uma boa música, curtir um bom papo e saborear uma boa comida! Foram seus melhores momentos aqueles! Ela cantava sem nenhum constrangimento, pelo simples prazer de cantar e de fazer os outros felizes trazendo a música pungente que conheceu em outra época. Era música doída, dolente como a vida que se vivia. 
         Nossa Aurora foi tema de músicas da Casa de Bamba. Era assim que ela cantava feito Chiquinha Gonzaga "... ela partiu me abandonou assim... oh lua branca por quem és tens dó de mim..."  
          Aurora era agradavelmente gordinha e macia! Seus olhos eram de um cinza pálido com pontinhos marrons que deixavam a gente meio sem jeito, pois nunca se sabia bem o que eles escondiam. Lembro da voz dela, da presença, a fisionomia... Sempre teve a mesma idade. Sempre pensei que ia morrer menina.
          Gostava de vê-la sentada ao pé do túmulo de nossos mortos. Rezava e depois ficava um tempão fazendo companhia a eles.
         Vivia com a casa cheia de amigos e sempre com hóspedes que ela cuidava como ninguém. 
          Lá em casa as rosas falavam, sim!
          As rosas amarelas sempre tinham endereço certo quando morávamos longe. Eram descritas em cartas com todas as minúcias. Cor exata... Perfume... . Tamanho...  Porte.  As imagens ficavam gravadas na retina e nos olhos da imaginação que  ainda hoje me sirvo delas.
          Ah como elas sabiam plantar! Os dedos gordinhos estavam sempre sujos de terra. Eram dedos verdes!
           Cada filho e cada neto com seu canteiro preferido.
           Sentada no colo dela com suas mãos sobre meus cabelos ela conseguia me devolver para mim mesma.
           Mãos com o poder de curar qualquer dor sem uma palavraTão gordinhas! Fofinhas como pão feito em casa.   Mãos de costurar, de transformar o velho no novo. Mãos de fazer crochê.  Mãos de carinho. Também batiam claras, manteiga e tudo o mais.  A roupa passada parecia nunca ter sido usada.Sabia cantar,fazer sabão,  ambrosia  e também carinhos quentes. 
        Quando novas, aquelas mãos escreviam com perfeição letras harmoniosas e desenhadas formando palavras carregadas de significado.. Foram as mesmas mãos que em cima das minhas me apresentaram o mundo das letras e depois o das palavras sempre intensas.. As mesmas mãos também ajudaram as mãos de minha filha no caminho do ler e escrever.
         Quando suas mãos descansavam assim cruzadas no colo fofo, os  dedos polegares faziam um movimento de ir e vir em círculos... Penso que era a forma que ela encontrava pra guardar a ansiedade de tantas coisas sonhadas  e ainda não feitas.
        Ao deixar este mundo, aquelas mesmas mãos que eu tão bem conhecia, inertes, cruzadas sobre o peito, mais  uma vez  me diziam de importância de nossos atos silenciosos e caridosos,pois ao longo dos anos que viveu no mesmo  bairro deixou marcas lindas na vidas das pessoas. Muitas delas, só tomei conhecimento quando as via, anônimas e silenciosas prestando  uma ultima homenagem. Algumas sentiam necessidade de me dizer o quanto eram reconhecidas pelo conforto material e espiritual recebidos. Foi então quando entendi a importância da máxima “Não saiba a tua mão esquerda o que a direita faz”
        Um dia ela partiu... Sua alma como um passarinho foi pousando de galho em galho em direção ao céu... E é de lá que me cuida.  Sei também que hoje ela cuida dos jardins do segundo andar como gostava de dizer. Esteve sempre se preparando pra viver no paraíso e tenho certeza que  a morte não a enganou porque a vida foi além dela. 
      Partiu deixando muitas Auroras pelo caminho..
.     Somente depois de ter andado por esse mundo de tantas casas é que pude reconhecer a beleza da casa e das mãos de minha mãe.
     Agora, com tintas da palavra, transformo-a de simples pessoa de carne e osso que foi em personagem novamente e uso mais uma vez suas ferramentas para a construção de minha vida,do meu chão, no bom e no menos bom, no bastante e no pouco, no ganho e no perdido, naquilo que é defeito em mim, mas também naquilo que é qualidade e, com certeza, essas ferramentas posso usá-las para me tornar cada dia uma mãe e avó melhor e mais feliz. 


segunda-feira, 16 de abril de 2012

NA MINHA CASA TODO MUNDO É BAMBA


                     Ir a Maringá e não ir à Casa de Bamba fica faltando um pedaço!  
                    Morando  longe de Maringá,  abro com cuidado a janela do tempo e vejo lá atrás  amigos  queridos  que  sentindo saudade uns dos outros e também  vontade de curtir um bom papo e boa musica    se reuniam fazendo um fundo de quintal na casa do Helington e Estelinha .
                 Eita tempo bom! Foi lá que num dia de profunda magia e inspiração decidimos  compartilhar  nosso sonho  com toda gente Bamba que estava espalhada por essa cidade maravilhosa.   E eis que surge a Casa de Bamba!  Nasce com estatuto, com sócios, com inspirações e uma vontade imensa de fazer o povo mais feliz! Afinal de contas, como dizia Vinicius “ser feliz é fundamental...” Assim estava consagrado o nosso Slogan.
                 A Casa de Bamba, que era ainda menina, serviu de espaço para boas inspirações, letras de musica, arte em telas, boas comidas e vai aí um carinho especial à Mariza, boas poesias, era só ir se achegando.. Quem tocava e cantava era bem chegado e quem queria só sambar  era também!
                Lá se vão bons anos e como era de se esperar a Casa de Bamba cresceu, se fez bonita que só, mas não se esqueceu de suas raízes, não! Então, Helington, carinhosamente, passou a dedicar um espaço para eternizar a presença de bambas que de alguma maneira deixaram seu rastro na historia dessa casa.  Essa ordem é aleatória... Mês passado foi a hora e a vez de DR Robson, Bamba da melhor qualidade! Tem Bamba que comemora com a gente lá da segunda nuvem à esquerda: nosso Bamba numero 13, Zé Claudio /Prefeito de Maringá e também a AURORA de todos nós que com certeza vai cantar a lua branca, de Chiquinha Gonzaga ao meu ouvido quando neste final de semana  eu estiver cheia de alegria e gratidão, também marcando meu lugar no espaço da fama!    


sábado, 14 de abril de 2012

Call Center

            Depois de conversar uns trinta minutos com a atendente da TIM sobre meu problema, na hora H da coisa toda, a ligação caiu.
           Frustrada, eu pensei, "Caramba, eu vou ter que ligar de novo na TIM e começar a conversa do zero com outro ..." 
         Mas para a minha surpresa, antes de completar a ligação, o meu celular toca, e adivinha quem é?
A menina da TIM! A menina da TIM me ligou. A menina da TIM retornou a ligação que havia caído!A menina da TIM me li-gou  !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
            Ela pegou pegou o meu número no cadastro e me ligou!!
           Eu pensei, "ôxente, grande idéia da TIM, permitir que as atendentes retornem as ligações para os clientes quando as ligações caem."
          Ledo engano, de lá para cá todas as ligações caíram e ninguém nunca mais me retornou.
Era uma atitude isolada da atendente.
          A menina simplesmente se colocou no meu lugar, e resolveu quebrar as regras burras que recebera para resolver o problema do cliente.
         Nunca mais encontrei outro soldadinho da TIM que tivesse o mesmo respeito por nós, clientes!Uma pena.
         O mundo do trabalho seria um lugar completamente diferente se as pessoas tratassem os outros como gostariam de ser tratados.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Vamos apagar a velhinha? Ops!!!!!!!!!!!!!!!!


              Sempre é bom na época do aniversário fazer um flashback. Ajuda no autoconhecimento  
                Neste mês faço sessenta e cinco anos e me pergunto: onde está a velhinha que eu esperava ser nesta idade e onde se escondeu a jovem que me olhava do espelho do banheiro  todas as manhãs? 
              As respostas chegam aos poucos... Veio à imagem uma menina de cabelos longos sempre despenteados, uma menina sapeca, agitada, que não parava quieta.
 Pense numa mãe  pretendendo  pentear os cabelos dessa menina, fazer uma trança bonita, dar ordem no desmazelo daquela cara vermelha...             
              Graças a DEUS  aos poucos essa agonia deu lugar a novos tempos! 
                                                 Voltando às configurações atuais:  a cara mudou. Há  algum tempo passei a precisar de óculos para perto. Foz logo um bocado deles.. ficam em todos os lugares menos onde estou. Sempre fiz luzes nos cabelos por opção.. Como os brancos são poucos, agora continuo com luzes ... Ainda não entrei na fase dos holofotes... (privilégio que herdei de meu pai, que só começou a ficar grisalho aos 70 anos). A capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo diminuiu muito, esqueço  panelas no fogo, esqueço os horários dos vôos.... Aliás, a memória, essa danada, merece um capitulo a parte: constantemente procuro determinada palavra ou quero lembrar nome de alguém e começa a brincadeira do esconde-esconde.
              Mesmo com tudo isso, gosto das vantagens que a idade me confere:  principalmente ser vovó e pagar meia-entrada (idosos, crianças e estudantes têm essa prerrogativa.Será que é porque não são consideradas pessoas inteiras?..)
          No momento, andar de ônibus sem pagar é  o máximo!! 
Acordo ainda quando a noite nem  terminou de transitar entre o sonho e a realidade , lá estou eu entre os muitos que entram no ônibus.Meio que dormindo ainda, com os corpos grudados aos bancos como o meu, ou em pé, no corredor, balançando  levemente ou de maneira mais brusca, pois quem controla nossos corpos é o pé do motorista.   Normalmente,eu caía nas curvas, nas paradas, nas acelerações...caía nos colos dos outros. Como agora posso entrar pela portada frente, vou logo me equilibrando e procurando um assento  prioritário!
Meus ouvidos  vão ficando  afinados para a falação que há dentro dos ônibus.Sinto que estou apurando meu canal de acesso  aos assuntos corriqueiros das famílias, do falar amassado,das reticências cheias de intenção, das palavras só começadas...Sei que não é só aqui! No ENEM também  tem!! rsss.... A língua está descalça e despenteada, como dizia Guimarães Rosa. Fico observando: “... Chegue... eita! Bora, coisada! “Diz o pai empurrando os filhos pra dentro do ônibus."qui bixiga é esta que tu tás falando?" “Ah! sim, e quando foi o seu aniversário, desculpe, não pude ir. O namorado de Joana? Sei não se volta do brejo antes de um ano,... o que será da pobre menina, lá atirada... logo arruma outo caba, isso se já não arrumou...” e as conversas vão se desenrolando e se enrolando como um macarrão infindável, como um novelo que se embaraça infinitamente, indefinidamente, como se fossem linhas tecendo um patchwork, uma estória dentro de outra estória.
O ônibus circulando..... circulando pelas ruas, pelas avenidas, mesmo por acessos quase sem acesso ,revelando, em seus caminhos, as lojas, os apartamentos,as casas,  o cotidiano  tão atormentado pelos horários, pelos compromissos, pelos débitos, pais, mães, parentes, esposas, maridos e filhos. E nós circulando, caindo descendo,crescendo,caindo e levantando todos os dias...
Aos domingos e feriados aqui tudo fica diferente! Domingos e feriados o ônibus tem outra cara. Fica praieiro. O povo desce feliz carregando a matula e a vontade de cerveja, mar e petiscos.        

             Voltando ao assunto dos meus sessenta e cinco, estou consciente que tenho mais passado que futuro ! Qundo comentei isso  com  minha filha , mais que depressa ela bateu três vezes na madeira ou no computador...
           Sobre estar evoluida, ficam algumas dúvidas;  ainda passo quase o tempo todo julgando tudo e a todos.Tá  certo que acredito,  firmemente, que esses  julgamentos possam servir de aprendizagem para diferenciar o correto, o bom e o menos bom,porque sei que por dentro, eu como todos, somos luz e sombra, generosidade e mesquinharia. Sei também que um dia todos seremos anjos ! Então, não preciso ficar agoniada! 
            Sei que a minha cota de sofrimento foi resultado de minhas escolhas, demorei muitos anos para conciliar em paz as duas partes em mim. Via tudo de uma forma que ainda  não sei explicar direito: antes era como se existisse duas Rejanes ora uma, ora outra. Hoje as Rejanes estão juntas,são uma "pareia".São camadas que formam um ser imperfeito e  que aprendi  a gostar . A falha, a falta, esse infinito buraco escuro e estranho que vivia no meu peito foi  o que me fez um ser normal, que me fez andar em frente! É exatamente assim que enquanto me mexo, às vezes desgrenhada, quase sempre de vestido longo, que em seguida fica velho de tanto usar, vou aprendendo a envelhecer,cair, levantar, transcender, escolher, renascer, amar e aceitar as muitas faces que formam essa Rejane que mora aqui dentro!
             Agora, ao lado do meu companheiro, com quem tenho compartilhado as aventuras do viver, meus passos me levam lentamente para uma sensação de bem estar e hoje me lembrei dessa música que Rose,minha amiga, me mandou:
              “If you choose not to decide, you still have made a choice.
              You can choose from phantom fears and kindness that can kill;
               I will choose a path that’s clear, I will choose freewill” *

             (Rush: Freewill; Rio de Janeiro, Praça da Apoteose, 10/10/2010)
                  O trecho do refrão da música citada diz o seguinte: “se você escolhe não tomar decisão, ainda assim você fez uma escolha. Você pode escolher medos fantasmagóricos e bondades que podem matar. Eu escolho um caminho muito claro, eu escolho o livre arbítrio”.
                E eu escolho ser feliz! Ser feliz é fundamental!
                Lembrei também de meu grande amigo, Ronaldo Gravino, que com um carinho lindo  de ouvir e de viver fez essa canção pro meu Gordinho e pra mim quando viemos morar no nordeste. gordinho! 
             Esta é  a forma que encontrei pra comemorar  meu aniversario com minha família e meus muito amados amigos!!
Simplesmente Re 

terça-feira, 10 de abril de 2012



Gostei de encontrar no baú esta foto de minha família!Estamos todos juntos. 

Esta é a primeira foto de minha vida! devia ter três anos.
QUINZE ANOS.
BAILE DE DEBUTANTES 
FORMATURA,  CURSO NORMAL 
Férias em Sta Rosa na casa de meus pais. Curtindo meus sobrinhos.
DESPEDIDA DE SANTA ROSA
com dezoito anos    
Maringá  1971

bons momentos ...


 Tempo de esperança  de um novo tempo 



IRMÃ querida

o Pai







































quarta-feira, 4 de abril de 2012

Os Domingos precisam de feriados




          Ainda bem que o Rabino Nilton Bonder, inspirado no descanso Divino do sétimo dia da Criação, disse que as montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado..
        E eu que não sou rabina e nem nada, também resolvi pensar nos domingos tão bons que conheço!  Falo dos domingos que não são feitos de festas que servem pra preencher a pausa que nem de longe  é um descanso. Não gosto muito da palavra entretenimento. Parece que fala de um desejo de não querer parar e não querer parar parece  certa forma de depressão.
       Chega o danado e esperado domingo e surge:  o que fazer no domingo? Essa pergunta já vem marcada pela ansiedade e ainda muitos de nós sonhamos em viver 120 anos, quando nem sabemos o que fazer numa tarde de domingo..ai ai !
          É pra gente assim que a Net e a TV não dormem nunca!    O amanhã é tão rápido que se confunde com o presente.
         Por isso ando treinando e procurando fazer de meus domingos um dia muito bacana, principalmente porque tenho muitos domingos na semana ... Então, logo cedo acho  uma verdadeira delicia caminhar olhando o mar. Não tem nada que atrapalhe meus olhos. Até a hora do almoço vale e é muito gostoso cozinhar pra quem a gente ama e pra gente mesma, tomando aquela caipirinha só pra deixar a soneca ainda mais domingueira!
        Tem domingo de todo jeito.  O bom do domingo é ficar de pijama. Com rodelas de pepino ou de batatas na cara. E ai de quem resolve fazer uma visitinha no domingo, à tarde. Pecado capital. Pronto! Falei!!!!  


sexta-feira, 16 de março de 2012

Envelhecer, ah essa metamorfose ambulante


        
          Quando tinha 15 anos achava que uma pessoa com qualquer idade  mais de 30 era um absurdo.
          Hoje, acho que era um absurdo eu achar aquilo.

      Gosto  de ouvir as histórias que as pessoas mais velhas tem para contar, são aventuras, alegrias, tristezas, gargalhadas e lágrimas que marcam a saga de cada um deles.Muitas sessas historias  acabam com a morte. Nem sempre  uma morte qualquer.  Morte (sim, com letra maiúscula, essa autoridade).É realmente muito difícil aceitar que vamos morrer, muito embora saibamos desde  pequenos que cada  passo que damos mais nos aproximamos dela, afinal cantamos nos aniversários: muitos anos de vida...A lógica é:mais um ano de vida que  é menos um ano, mas claro mais um ano é pedido, porque na verdade também estamos falando de 365 dias passados e de preferência bem  vividos e assim se renova a esperança de novos belos 365 dias.
       Se morrer é certo, viver não é assim: afinal viver não é o mesmo que existir.Se é que podemos definir que  socialmente bem sucedido é aquele que conseguiu ser feliz. E a felicidade de uma pessoa é construída ao longo do tempo, por muitos fatores que vão de família, trabalho, espiritualidade, "conquistas", aprendizado, etc.
       Como  corpo muda desde sempre,  costumamos dizer grosseiramente que o corpo fica feio ao envelhecer, é quando as rugas aparecem, o cabelo se torna grisalho, a pele flácida, mas isso se deve também ao valor que a sociedade atribui à estética, onde a ditadura da beleza cada dia mais exige que sejamos verdadeiros seres biônicos, providos de "corpos perfeitos", mas com o tempo isso muda, assim eu espero. Ah como espero!   A palavra esperança nasceu de esperar....
         Assim como o vinho melhora com o passar do tempo, espero que ao envelhecer nos tornemos  melhores, pois a gente sempre ouve dizer"você não cresceu não é?"Fica claro que crescer é evoluir e não espichar.
          Acreditando na questão da evolução do espírito, já que a  criança está próxima da Criação por uma questão de tempo, nós velhos, estamos  mais  próximos da origem e do Criador, já que para este deve retornar.

       É  lógico também entender, então, que há mais sabedoria naquele que  já viu e viveu muito.  Mesmo que, nem sempre   se saiba o que fazer com a sabedoria.... 
        Outro dia, estava jogando tênis com meu neto e  disse a ele:
 - a vovó está precisando parar. Está velhinha e precisa descansar um pouco.
 - eu sei.
 -  como que você sabe?
 - o meu amigo, Artur, também é velho. já tem quatro anos!
    Tratei logo de  realinhar as dobradiças deste sábio corpo e continuar o jogo! 
Afinal, é para isso que vamos vivendo e experimentando a alegria de sermos eternos mutantes.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Viva A MULHERADA!!!


        Quando vi essa foto de todas vocês preparadas para a corrida da mulher senti uma tremenda emoção: caras, corpos e corações que venho acompanhando ao longo desses anos... Algumas cresceram rápido, feito você, Renata. Fechei os olhos e quando abri outra vez encontrei uma mulher!  Sei bem de que material você foi feita! E como quem sai aos seus não degenera, a máxima mais uma vez fica valendo!
       Portanto, sem duvida nenhuma digo que você é exatamente o que vc está gerando através de sua luta, dos deveres que se impõe! Você é a estrada por onde tuas mulheres correm atrás e com você! Tenho acompanhado teus feitos... Tão nova, tão grande, tão menina, tão mulher! Não vou dizer tão guerreira por que não gosto muito desta palavra. Prefiro dizer que vc é uma mulher que busca! Isso! Achei! Tão buscadora!
Vc buscou em todas o que elas mais querem: elas querem a vida! Estão descobrindo o prazer escondido na corrida ao ar livre, nas esteiras, na chuva, na areia fofa e também atrás de filhos que correm sem parar! 
Em abril estarei aí torcendo por vcs!!

sexta-feira, 9 de março de 2012

Com quem será?



Com que será que essa princesa vai casar...
         No final das contas e no começo dos contos... 
        De todos os nomes e lembranças  presentes, em nome do nome Sagrado, do bem casado ofertado e do espumante bebido, foram felizes  Beto e Paola naquele dia, hoje, amanhã e depois…
          Lá onde vive nossa Aurora, a lua cheia e outros encantos que povoam nossos sonhos, os anjos de Paola e Beto disseram Amém!Namastê!Que assim seja! Oxalá e muito mais!
E nós aqui da terra, todos cheios de felicidade curtimos tudo!                  Todos se enfeitaram com o que mais lhes agradava pra enfeitar aquele dia que era da Paola!
           Desejamos naquele dia que, depois da festa, pudesse haver outra festa e mais outra, um dia depois do outro e que o sorriso de um pudesse ser festa, fartura, mel, peixe assado no fogo, coco  na praia, onda salgada do mar… Que as palavras do outro fossem como  tecido branco, vestido transparente de alegria.
          Queremos dizer que o encontro da família depois de onze anos serviu pra fortalecer os laços que ficaram frágeis com o passar do tempo e com a ausência de nossa Aurora, (elo de tão boas ligações e construções de família). 
            Que bom que o campo está fértil outra vez! Novas Auroras(Cris) estão fazendo esse caminho de volta, essa ponte para o aconchego de família, (esse grande laboratório para aceitação de todas as diferenças e exercício de amor).
         Foi maravilhoso estar com a Dinda minha Odila!
 Amiga, elegante, de olhar carinhoso e terno para cada um da família, construção feita ao longo dos anos. O titulo de Dinda agora é definitivo!  Agora vc é dinda de todos! Tanto é agregadora que nos deu a Parenta de presente! 
       A tua coragem, autonomia e carinho de encarar os desafios nos encantam! Que bom que vc veio!



         Aqui  estamos nós,as  mulheres de tua família,Paola. 








         A Mãe da noiva?
Que belo titulo!! Todos nós esquecemos teu nome,LU!!!
Teu ar era rarefeito... De rainha mãe! Querer mais o quê? Era um tal de perguntar “ como está a mãe da noiva? Já acordou? Melhorou? Dormiu?” Até a moça do cerimonial perguntou “onde tá a mãe da noiva?”
E ela chegou linda trazendo a filha pela mão como nos velhos tempos!!


       Grandes encontros são bons pq a gente encontra um cara que dá pra chamar de O CARA
Quem usou os olhos de ver, viu Luã zoando as cçs e as avós das cças com a luz misteriosa!
Viu esse Cara subindo e descendo ladeiras acompanhando os bêbados felizes da família e tb  esvaziando colchão de ar  debaixo de chuva, sendo parceiro do André,dispensando taxi  que não tinha passageiros na madrugada do casório,ninando filha de tia que acordou na madrugada!
 O Luã deu um colo silencioso para esta avó aqui qdo a viu chorando.
E tem mais; além de resolver todos os embaraços que os pais se metiam por conta das modernidades de celulares e outras coisas que falavam e se mexiam, ele sabe cozinhar Tb! 
          E a Lize? Pensem numa avó com pedigree!! Cuidava da Manoela até com as mãos nas costas. Tá certo que a Manô é gente boa toda vida! Bem... Não posso deixar de lembrar que houve só um breve descuido e a guriazinha com cara de anjo comeu uma asa de borboleta do brinquedo da prima KÁKÁ. Nada de mais que não pudesse ser concertado: a asa foi devolvidanum grande jato junto com feijões arroz e o mamá!!! 



         Olha só a cara do BIG POLACK!
Só se comportou no dia do crepe!
 Ah querido irmão, se optarmos por algumas tradições patriarcais vc passa a ser o chefe dessa tropa toda!
Isso!Mesmo não querendo o canivete!  A tua sorte pode ser boa pq com o passar do tempo nos misturamos tanto que quem era Ferreira, ficou Dalmas, quem era Marodim virou Piola. Quem era oposição virou situação! Já não sei mais.  Só sei que de agora em diante somos da família do Beto também!A tua


       O Liam, que estava acostumado a nos ver de bermudas, shorts, bonés e camiseta ficou encantado com a transformação e dizia pra mim que todos estavam muito lindos só o homem de vermelho (o padre) que não estava bonito!

      Foi muito legal ver as crianças andando no corredor do hotel chamando uma aos outros; era um tal de” pimo”! Pimo! Aí o pimo chegava, pegava bem de “vaguinho” os cabelos das pimas e tentava fazer uma escova progressiva num puxão só!!
     De tudo o que vivemos ficou bem clara a vontade de repetir a dose.. Não é preciso um grande motivo, basta uma grande saudade.
     As melhores fotos que mostrariam os lugares por onde andamos naquela semana de festas ficaram com o Piola, que numa ação rápida demais deixou que fugissem todas  da super, mega, Power máquina! Mas mesmo que elas tivessem ficado, nunca contariam as aventuras de nossos homens soltos neste nordeste que amo, voltando pro hotel
       Não sei bem se voltaram de jegue ou o quê... Enquanto bebiam, compravam carrinhos de sorvete, faziam consultas como especialistas de pulmão em mulheres fumantes... Por aí já se vê que temos um bom motivo para um novo encontro. Principalmente pq o DODI estava em Umuarama com a LUIZA!!!
A gente só não falou mal dele , pq nossa Aurora nunca deixou !
      Das lembranças boas desse encontro, ficou a certeza, mais uma vez, que a gente veio ao mundo pra vencer os próprios obstáculos, caminhar com as próprias pernas. E mesmo a gente trilhando caminhos diferentes, lá no fundo, ficou um desejo de nos encontrarmos outra vez para matar a saudade, dar longos abraços, muitas risadas e comparar o rumo das nossas prosas..
      E assim a gente vai e vem...


terça-feira, 6 de março de 2012

Um tempo sem nome


Dedico a pagina de hoje aos amigos Piola e Mariza Poltronieri 
O namoro do Chico Buarque com a cantora ruiva Thais Gulin rendeu para gente a musica: ESSA PEQUENA, a letra vai aí abaixo e tem mais! Rendeu também a  crônica "UM TEMPO SEM NOME" da escritora Rosiska Darcy de Oliveira sobre “o novo conceito de envelhecer”.  Também segue abaixo. 
 Essa Pequena
Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela
Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la
Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai
Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena

  
          Um tempo sem nome
Rosiska Darcy de Oliveira, O Globo, 21/01/12

"Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.
Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida .
Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.
A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.
Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.
Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.
A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.
”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.
Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da traição.Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida."