Fico feliz cozinhando. Não sou cozinheira. Preparo pratos simples. O que mais gosto de fazer são as sopas.Vaca atolada, sopa de abóbora com carne de sol, sopa de mandioquinha com frango,hummmmm ...
Mariza Poltronieri, minha amiga diz que a culinária leva a gente bem próximo das feiticeiras. É uma relação de ternura a dela com a comida e com seus convidados.
Mariza Poltronieri, minha amiga diz que a culinária leva a gente bem próximo das feiticeiras. É uma relação de ternura a dela com a comida e com seus convidados.
Também as sopas me conduzem à cozinha da minha casa de menina onde a comida era feita no fogão de lenha. O fogo tinha uma ciência para acender. O pai ensinava que se os paus grossos,os paus finos e os gravetos não fossem colocados na ordem certa, o fogo não pegava e depois de aceso o fogo era preciso ficar atento. Quem acendia o fogo se tornava um bom atiçador lá em casa. A janta (janta, mesmo; jantar é coisa de rico) era servida bem cedo. Daí a explicação para continuar com o velho hábito.
Ah! Uma sopa quente de abóbora cabotian, tomada numa noite fria era feito uma lareira que se acendia no estômago. O calor, aos poucos, ia se espalhando pelo corpo. E com umas gotinhas de pimenta, então?As gotinhas se transformavam em suor e se a gente não usava o guardanapo a tempo, as gotas de suor na testa acabavam por cair dentro da sopa...
Sopa é comida de pobre. Só soube a diferença muito tempo depois; sopa fina, a gente chama de creme, creme de aspargos, creme de palmito. As sopas fundamentais se fazem com sobras. Sobra, é só pobre quem guarda. Sopa é comida de guerra, de fome, quando qualquer raspa de comida é bem precioso, que não pode ser perdido. Rico não guarda sobra. Não precisa. Não sabe. Sobra de rico vai para o lixo. Sobra de pobre vai pro o caldeirão de sopa. A sopa é uma poção mágica por meio da qual o que estava perdido é salvo da perdição e reconduzido à circulação da vida e do prazer. Sopa não é prá ser comida. O pai lá em casa sabia muito bem. Nunca tomou sopa com o lado da colher, só com o bico. A colher era funda, servia mesmo pra "colher" a sopa que vinha escorregando para dentro com muito barulho e gemidos de prazer.
Antes eu só gostava de sopa consistente, engrossada. Agora acho o caldo da sopa é uma forma meio mágica de juntar no caldeirão tudo o que nasceu separado e é só ir fervendo, fervendo.... Gosto de botar numa xícara grande e ir tomando bem devagarzinho. Ainda preciso aprender a curtir as migalhas de pão no caldo, migalhas não. Croutons!
Outro dia falava com o meu dentista, que com água na boca, lembrava da sopa de fubá que a mãe dele fazia lá em Minas qdo um dos filhos sentia que ia gripar.(Aqui no nordeste a gente chama de xerém..).Enquanto ele ia falando a saudade ia batendo e a gente decididamente, definiu que as sopas servem como remédios maravilhosos. Quando a sopa quente, cheirosa, colorida e apimentada, bate no estômago a tristeza se vai e a alegria volta. Não há melancolia que resista à magia de um prato de sopa... A gente devia tomar mais sopa com a família...Tomar mais sopa com os amigos!








