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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ah, as sopas!

          Fico feliz cozinhando. Não sou cozinheira. Preparo pratos simples.  O que mais gosto de fazer são as sopas.Vaca atolada, sopa de abóbora com carne de sol, sopa de mandioquinha com frango,hummmmm ...
           Mariza Poltronieri, minha amiga diz que a culinária leva a gente bem próximo das feiticeirasÉ uma relação de ternura a dela com a comida e com seus convidados.
             Também as sopas me conduzem à cozinha da minha casa de menina onde a comida era feita no fogão de lenha. O fogo tinha uma ciência para acender. O pai ensinava que se os paus grossos,os paus finos e os gravetos não fossem colocados  na ordem certa, o fogo não pegava e depois de aceso o fogo era preciso ficar atento. Quem acendia o fogo se tornava um bom atiçador lá em casa. A janta (janta, mesmo; jantar é coisa de rico) era servida bem cedo. Daí a explicação para continuar com o velho hábito.
             Ah! Uma sopa quente de abóbora cabotian, tomada numa noite fria era feito uma lareira que se acendia no estômago. O calor, aos poucos, ia se espalhando pelo corpo. E com umas gotinhas de pimenta, então?As gotinhas se transformavam em suor e se a gente não usava o guardanapo a tempo, as gotas de suor na testa acabavam por cair dentro da sopa...
            Sopa é comida de pobre. Só soube a diferença muito tempo depoissopa fina, a gente chama de creme, creme de aspargos, creme de palmito. As sopas fundamentais se fazem com sobras. Sobra, é só pobre quem guarda. Sopa é comida de guerra, de fome, quando qualquer raspa de comida é bem precioso, que não pode ser perdido. Rico não guarda sobra. Não precisa. Não sabe. Sobra de rico vai para o lixo. Sobra de pobre vai pro o caldeirão de sopa. A sopa é uma poção mágica por meio da qual o que estava perdido é salvo da perdição e reconduzido à circulação da vida e do prazer. Sopa não é prá ser comida. O pai lá em casa sabia muito bem. Nunca tomou sopa com o lado da colher, só com o bico. A colher era funda, servia mesmo pra "colher" a sopa que vinha escorregando para dentro com muito barulho e gemidos de prazer.
            Antes eu só gostava de sopa consistente, engrossada. Agora acho o caldo da sopa é uma forma meio mágica de juntar no caldeirão tudo o que nasceu  separado  e é só ir fervendo, fervendo.... Gosto de botar numa xícara grande e ir tomando bem devagarzinho. Ainda preciso aprender a curtir as migalhas de pão no caldo, migalhas não. Croutons!  
             Outro dia falava com o meu dentista, que com água na boca, lembrava da sopa de fubá que a mãe dele fazia lá em Minas qdo um dos filhos sentia que ia gripar.(Aqui no nordeste a gente chama de xerém..).Enquanto ele ia falando a saudade ia batendo e a gente decididamente, definiu que as sopas servem como remédios maravilhosos.  Quando a sopa quente, cheirosa, colorida e apimentada, bate no estômago a tristeza se vai e a alegria volta. Não há melancolia que resista à magia de um prato de sopa... A gente devia tomar mais sopa com a família...Tomar mais sopa com  os amigos!

É um trololó...

             Aqui em casa tem sempre café com trololó. Trololó é um jeito de falar. Fala sem objetivo definido, como o vôo das aves  indo ao sabor do vento. Palavras acontecendo. Um jeito nordestino de ser. Para o trololó não existe 'ordem do dia', não há conclusões, não há decisões. O trololó não quer chegar a nenhum lugar.  Encontra sua felicidade no próprio trololó. Como andar de barco a vela em que o bom não é chegar mas o movimento. A coisa não está nem na partida nem na chegada, mas na travessia.
       A gente do sul tem uma fala com um objetivo preciso: ter razão. Ganhar o argumento. Convencer. Há grande chance da prosa da gente do sul terminar mal. Um ganha, fica feliz e se sente superior. O outro perde, fica com raiva e se sente inferior e assim vai num toma lá da cá.
      O grande lance do trololó é ir em frente num vai e vem feito de um prazer permanente que não acaba nunca. Ganhar na prosa significa o fim do brinquedo. Curtir um trololó é o grande, o mega, ultra Power segredo das relações amorosas e das amizades construídas sem pressa... Nietzsche dizia que quando uma pessoa se prepara pra casar a única pergunta importante que devia ser feita é "terei prazer em conversar com essa pessoa quando eu for velho?" E não é que ele tinha razão?  
      Outro dia aqui em casa a gente começou um trololó sobre o "Quero- quero".  Quero-Quero é o nome de um pássaro de pernas compridas que pode ser encontrado andando. Andando feito gente pelos campos, melhor dizendo, pelos pampas gaúchos. O nome já está dizendo: quero- quero.   Querer é desejar. As crianças mais do que ninguém são movidas pelo querer.  Elas parecem ter a alma habitada pelo querer. Querem muito! querem tudo!
       Outra coisa curiosa é que o quero-quero tem a voz estridente que só!
       Meu irmão mais velho, diria  que esse bichinho cantador também é chamado de sentinela dos pampas... Sempre dando sinais de quem se aproxima.
       Quando criança, lá em casa, o pai contava uma história da Sagrada Família que ao fugir ,muitas vezes precisava se esconder dos soldados do Rei Herodes. Numa dessas vezes o pai do menino Jesus pediu pra todos os bichos que fizessem silencio, que não cantassem. Todos obedeceram prontamente, mas o Quero-quero, não: queria por que queria cantar. E dizia: Quero! Quero! E tanto disse que foi amaldiçoado: ficou querendo até hoje!
      De um trololó para o outro é só fazer reticências, mudar o rumo da prosa e pronto!

04/03/11

Planalto,sim senhor!



Uma pessoa se torna importante prá nós, qdo somos capazes de, mesmo na sua ausência,rir ou chorar, de sentir saudade e então encontrar no baú das lembranças bons momentos prá recordar..
               Quando o filho primogênito nasceu, meu pai num rasgo de iluminação e cultura correu para o cartório e registrou-o com o nome de Planalto!   A mãe demorou bons anos para digerir nome tão avesso. Já meu irmão, tão logo se entendeu por gente, passou a fazer de seu nome um verdadeiro acidente geográfico!! De longe era visto e ouvido...
Menino cigano, desde muito cedo começou a andar por esse mundo de meu Deus comprando e vendendo sonhos. No auge dos anos sessenta, com apenas quinze anos, resolveu singrar outras terras, buscar sucesso, fazer a vida, deixando a mãe chorosa, de vela acesa e apegada às orações que o protegeriam pelo mundo afora.
Era uma época de grandes movimentos políticos no país, mas nós parecíamos ilhados. Alienados, ou melhor, quase alienígenas devido à falta de informações. O que valia pra gente era o que vivíamos.
Em pouco tempo acostumamos com a ausência de nosso irmão, sócio da fome e das traquinagens. Mas como num sonho um dia ele voltou. Voltou e com ele a ilusão de dias melhores! Chegou bem no dia em que Marialu fazia quinze anos. Muitos amigos chegaram também para uma reunião dançante. Eu, com onze anos, ficava encantada com os peitos da minha irmã que apareciam num decote bem generoso! Nossa mãe deixou que fizessem cuba libre pra beber. Era o máximo! Em pouco tempo apareceu uma radiola e do bolso da jaqueta de couro do meu irmão, um anel de quinze anos!! Eu batia palmas e delirava de tão feliz!! Agora entendo que desde aquela época já gostava de festas.
O Planalto não era fraco não! Chegou cheio de modernidades. Em pouco tempo estávamos freqüentando um clube super badalado da cidade! Mérito dele que conseguiu uma cota de sócio prestando serviços como construtor no clube. Nossa mãe reciclava os vestidos sem cara e sem donos em verdadeiras obras de arte e lá íamos nós, os três, freqüentar a sociedade tão distante de nós e tão sonhada!Só Deus, meu irmão, minha mãe e dona Lídia souberam das barreiras rompidas para que eu pudesse debutar com todas as honras dadas a uma menina-moça cheia de ilusões... E lá estava eu, magra, muito magra, linda de viver ao lado do meu príncipe. Dancei a noite toda e só quando era de manhãzinha que meus irmãos descobriram que eu havia perdido os sapatos!!
Gostava muito das músicas que meu irmão cantava. Cantava forte. Cantava com sentimento, cantava e assobiava também. O assobio parecia o de um pintassilgo!! Morria de inveja, pois nunca consegui assobiar forte.
Depois ele casou, teve três filhos e morou em muitas cidades e em muitas casas. Sempre era novidade visitá-lo. Agora não vai mais ciganar... não mais vai mudar...
               Foi uma experiência boa e bela ter tido você como irmão por tantos anos.
Poderia ter sido mais... Mas, qualquer dia a gente se encontra, colocamos uma vírgula no tempo e continuamos
...


O pai mora na segunda nuvem, à esquerda

          O pai, criatura de boa paz. A primeira vista, podia-se afirmar que além de boa índole era também  influenciável. Grande engano! Só fazia o que lhe agradava. Olhos azuis infinitos e ingênuos, o ar quase distante, suavemente desligado. Atrás daquela aparência displicente, com certeza, morava um homem que se protegia de tudo o que consideragva chato. Só lia o que queria, só comia o que gostava.  Falava sem medo e sem vontade de agradar. Mulher, filhos e netos compunham o cenário da família, mas não o impediam de sua vida própria.
A grande verdade é que o pai era profunda e orgulhosamente só... Na vida profissional fez infinitas tentativas: foi alfaiate, pedreiro, agrimensor, carpinteiro, e muito mais. Adorava reformar as casas que morávamos de aluguel; fazia sacada, construía galinheiros, transformava janelas em portas, de uma peça fazia duas que davam numa terceira e levava minha mãe à loucura com todos aqueles labirintos!
Como alfaiate também não obteve sucesso: na época que fazia o curso que o habilitaria na profissão estava noivo e pelo visto, bastante danado! Escondido da noiva resolveu ir a uma cidade vizinha brincar o carnaval sem dar na vista. Coitado! Na volta, todos os foliões empoleirados na caçamba de um caminhão se depararam com uma corda amarrada de um lado ao outro da rua. Todos se abaixaram mais que depressa para não serem degolados, com exceção de meu pai que resolveu apenas arquear o corpo para trás, num golpe de contorcionismo. Golpe mal calculado.  Resultado: a corda derrubou-o do caminhão e lá ficou ele com várias seqüelas do tombo! Inclusive as convulsões que o perseguiram durante anos depois de casado.
         Um belo dia, o pai, por milagre das orações e xaropes de curandeiros, sarou!  E lá vivia ele apaixonado por política! Getulista ferrenho! E Brizola então?!
Lembro agora que, durante o programa do Repórter Esso, éramos proibidos até de respirar perto dele... Momentos que aproveitávamos pra fazer diabruras! Sem medo de sermos pegos.  Aquela paixão por notícias o acompanhou para sempre. O que mais me surpreendia era como as notícias chegavam aos seus ouvidos. Elas adquiriam um novo significado, um novo tom!
Nós dois fazíamos aniversários bem próximos, mas ele sempre deixava que eu comemorasse o meu, mostrando uma generosidade que era sem igual.
Agora que ele mora na segunda nuvem à esquerda percebemos que suas marcas foram folclóricas e quase lendárias junto de netos e bisnetos. As netas guardam com carinho as fotos e lembranças da casinha de bonecas construída no quintal da casa que dava até pra morar dentro! Lá havia fogão à lenha e tudo o mais. Eram lá que as primeiras vontades de brincar de gente grande das netas tomaram corpo...!

      O Gaúcho também morando lá na nuvem...
              Dos filhos que nasciam rompendo o tempo regulamentar entre um e outro, nasceu Milton, tão rente comigo que disputamos o colo, o leite, a cama e assim fomos crescendo e distanciando nosso querer porque querer não era poder lá em casa. Assim que fez dez anos, por influência da mãe e dos padres, foi para o seminário. Ia ser padre e a mãe ia ter seu lugar garantido ao lado de DEUS pai todo poderoso!
Um dia ele não quis mais ser padre, quis tocar violino! A mãe sofreu. Todos sofreram também, vendo o sofrimento dela. O tempo passou, o violino foi esquecido e ele continuava com um mundo particular... No começo, quando jovem, ria muito. Depois bebia e ria. Depois só bebia. Não ria mais! Sonhava muito. Sonhos que não conseguíamos aceitar! A gente tinha aprendido que o sonho tinha que estar só uma escala acima da realidade! E que para sermos normais nós, os irmãos, tínhamos que nos parecer uns com os outros...

Gaúcho era diferente. Via o mundo com as cores e sonhos próprios. Antes de completar cinqüenta anos, optou por uma vida à beira de um rio, minimalista que era, tinha tempo e vontade suficiente pra lavar a camisa e depois ficar esperando que secasse, tendo como pano de fundo o rio imenso e belo!
Seu tempo foi curto aqui, logo foi morar na segunda nuvem onde mais tarde virou o lar de muitos de nós!
Deixou dois filhos guardando do pai a imagem e o afeto mais puro que se pode ter.
O filho, jovem de vinte e cinco anos, partiu também. Um acidente trágico o levou para a outra margem da vida. Neno não viveu o bastante para ver o homem que queria ser. E por ter sido o menino que foi, fez coisas além do sonho que sonhou. Trazia consigo toda a infância no sorriso. Nada levou, deixou o que a vida tinha dado: o amor, a energia, a alegria de criança, uma adolescência cantada e brincada com a vó e primas, mas sabia guardar o poder da infância que passeava sorrindo dentro de seu peito de jovem.
E nós guardamos a certeza de que pai e filho estão juntos agora e que um vento suave sopra lentamente às suas costas abrindo novas estradas e o sol brilha morno  nas faces deles.
E até que nos encontremos outra vez, que DEUS lhes guarde na palma de sua mão!!!

Em nome do filho

Tem dia dos pais, das mães, de Santo Antônio, de São João, de todos os santos;
Dia da criança, da páscoa, de natal, de ano-novo e dos mortos.
Só não tem dia de filho.
Então decidi instituir o dia do filho: 06 de julho.
Filho que ama, que chora, que se supera, que cai e se levanta, que tenta, que procura, que acha e que perde;
Filho que, no ventre da mãe, sente os anseios e os temores, o carinho e a ternura;
Filho que esconde as notas e leva sermões;
Filho que briga em casa e apanha na rua;
Filho que se estanca em lágrimas com as fatalidades;
Filho que sonha um sonho ainda não vivido;
Filho que não duvida do impossível;
Filho que escuta, porém só ouve o que quer;
Filho que se surpreende com o inatingível;
Filho que sofre com o sonho alheio;
Filho que ama o costumeiro;
Filho num vôo passarinheiro;
Filho que se orgulha de ser filho de quem é;
É um filho que queria ser só filho;

Zezé ( 06/07/2008)
Vai Zezé, mostra mais de vc! mostra a aurora que mora aí dentro! Não é uma simples aurora, é a aurora boreal!!

Logo agora esta vontade?????????

                 Tirei férias, é isso. Na verdade, continuo de férias. Não que eu não tenha o que fazer, é que hoje meu trabalho é de acordo com meus desejos e necessidades...   Poucas coisas têm prazos e hora marcada. Nesse meio tempo, escrevi uma dezena de coisas mentalmente e tive preguiça de colocar no papel/computador. Aliás,  me dei conta recentemente de uma coisa. Eu escrevo melhor na minha cabeça. O pensamento é rápido demais, e, por incrível que pareça o que mais acontece é eu estar lavando louça, caminhando na praia ou naqueles minutos antes de adormecer e começar a pensar como se estivesse escrevendo. Saem coisas legais que eu jamais dou conta de reproduzir depois, mas na hora que eu poderia escrever de verdade, cadê que eu lembrava aquilo tudo que eu tinha pensado?
                 Sei que vcs, meus amigos, me vêem com olhos tão gentis que fico inteiramente à vontade e desando a falar feito um bonde sem freio. Agora sem tanta preocupação com a vaidade, bicho tão sutil e ardiloso... Eu me confesso vulnerável a esse desagradável defeito, e por isso me lembro de vez em quando de minhas falhas. Se alguém tem a mínima ilusão a meu respeito, saiba que eu peno horrores pra me manter em dia com os assuntos que me interessam e pago o preço de deixar montes de pedaços de vida perdidos no caminho. Me disperso com facilidade, atiro pra um monte de lados e perco o foco em coisas que deviam exigir a minha atenção mais concentrada.  Prometo coisas que não dou conta de cumprir, faço outras tantas numa qualidade medíocre que deixa a desejar e depois me irrito. Sou ansiosa, impaciente, crítica, ainda que hoje me considere menos controladora do que já fui, mas ainda tenho dificuldades em lidar com falhas, sobretudo as minhas próprias Por todas essas coisas,se eu ficar esperando para escrever alguma coisa que preste, vocês só vão me ver de novo daqui a quatro/ quatorze anos.  Então vou postar o que saiu nas minhas andanças de cabeça:
         Esse negócio de dizer que a mente manda no corpo nem sempre é verdade. E quando o corpo tira um sarro da gente?
         Querer espirrar e não conseguir é em minha opinião, um dos maiores fracassos do corpo humano. A vontade surge do nada, tô fazendo alguma coisa e de repente, para! Não sei se respiro ou se prendo o ar. Sinto que ele, o espirro tá vindo, então   aperto os olhos, abro a boca, e do nada, sinto que a vontade tá passando… Numa atitude desesperada procuro um foco de luz e vale qualquer coisa; TV, lâmpada, o sol… às vezes funciona às vezes o bendito some! Aí, nada mais chato do que alguém te perguntar, Tá com vontade de espirrar?Só pra vontade passar de vez. Ai que raiva que dá desse povo sem graça!
        O bocejo já é o oposto. Você nunca fica tentando bocejar, mas muitas vezes você fica tentando não bocejar. E só de escrever a palavra bocejar, já estou bocejando! Não é muito doido? Eu fico super sem graça de bocejar em reunião!Uma porque mostra que estou desatenta, e outra porque é altamente contagioso e todos começam a bocejar num ritual sem fim. Coisa estranha mesmo…
        Outra piada de mau gosto do corpo humano é o soluço. Logo agora!... Tem coisa mais chata que soluço? Porque espirrar e bocejar é sempre gostoso, fazer xixi então, nem se fala, mas o soluço é uma sacanagem diferente, se vc bebeu muito ele te denuncia,porque você não quer soluçar, é ruim, e fora que ele te faz muito de idiota. Pra mim, todas essas teorias de dar susto e beber água de ponta cabeça, são teorias furadas, são  um passa tempo qualquer. aff! esqueci como se escreve essa palavra)
Nem vou falar de pum....... Logo agora esta vontade? Bem  nestas horas que o corpo tirra um sarro da gente!!!!!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Buscando as Auroras

              Posso dizer que, assim que dei conta de mim, minha mãe foi logo me dizendo disse que eu nascera empelicada. Segundo ela era uma benção! Apesar do jeito raquítico e desengonçado, decidi logo que seria guerreira!
               Minha primeira grande batalha foi brigar pelo colo que em menos de um ano já precisei dividir com outro irmão.
              Da minha infância trago poucas lembranças daquelas que ficam lá guardadas num bolsão cheio de memórias e que às vezes,quando me distraio, elas aparecem como nada querendo...
               Até os nove anos minha aparência era franzina. Usava tranças loiras e no nariz quase arrebitado um monte de sardas. Lembro também que tinha mãos finas e dedos longos que alcançavam o miolo do pão com a maior facilidade. Os pés, esses sim, me deram muito trabalho para mantê-los limpos. Passava grande parte do meu tempo empoleirada no tanque esfregando-os. Eram tão brancos e macios que pisar no chão descalça era desesperador!
              Lembro bem do meu vestido domingueiro. Era xadrez e na frente tinha um babadinho que fazia um grande V de onde saiam duas fitas para fazer um laço nas costas. Laço este que minha mãe fazia questão de mantê-lo bem arrumado! Que dificuldade! Eu vivia desarrumada, desmanchada... Acho que nunca gostei muito de laços.
               Ah meus olhos eram grandes, um pouco assustados, esverdeados como os de meus dois irmãos mais velhos. Olhos de quem queria ver o que os outros não podiam ver... Meus olhos eram capazes de ver os cabelos das bonecas feitas de espiga de milho balançar ao vento, lindos como quê, enquanto eu corria com elas. Todos os brinquedos eram feitos por nós; bonecas de abóbora-menina, sanfonas de folha de cana e outros tantos.
                       Eu lembro que, numa certa fase, toda vez (foram poucas, confesso) que eu tinha essa sensação de que ninguém me entendia e ficava tão exageradamente sem rumo que ficava namorando a idéia  de morrer só pra ver os outros se martirizando por não terem me dado a devida atenção, ahahaha...Era  muito dramática e teatral! Deitava no chão escrevia um bilhete dizendo: eu morri. De olhos fechados, no escuro ficava um tempão esperando que me encontrassem.
              Também fugi de casa depois de reprovar no exame de admissão no ginásio. Ia fugindo e olhando pra trás na esperança que me encontrassem logo, e logo fossem dizendo que isso não era nada, que a culpa não era minha, que o professor Lauro era quem me perseguia, etecetera e tal.
                Por aí se vê que a escola nunca foi o meu forte e tampouco o meu fraco. Graças a minha mãe e a boa sorte de ter nascido empelicada, terminei meus estudos sem grandes dificuldades.     Além da tabuada, na minha memória ficaram algumas regras de gramática e as aulas de literatura que mais tarde me levaram à grandes vôos..
                 Ficaram na memória os dias de chuva, que por mim nunca deviam ser limitados! Pois eu os adorava!  Fazia barcos de papel pra largar na enxurrada e imaginava que eles iam percorrer o mundo em busca de um tesouro, mas eles naufragavam ou se perdiam.
                Mãe tinha verdadeiro pavor de chuva, raios, trovoes e tempestades. Sempre tinha muitas goteiras dentro de casa, principalmente aquela sobre o colchão, que parecia xixi... E fazer xixi na cama era uma desonra!      
                Ela só sossegava quando via os cinco filhos guardados e seguros quase embaixo de sua saia, façanha impossível com o pai!
               Depois que cresci, os dias de chuva propiciavam andar de galochas brancas, uma capa de chuva de gabardine azul clara com sombrinha da mesma cor, impermeabilizando o tempo lá fora do tempo daqui de dentro.
              Como toda adolescência de toda menina da minha época, passei escondendo os peitos que cresciam timidamente, a menstruação que me envergonhava muito e outros sonhos pecaminosos que fiz questão de esconder em gavetas com chaves perdidas.
              A infância e adolescência deixam rastros em nossa memória... Lembro das poucas revistas que li.   Tinha  uma que trazia uma moça usando um sutiã meia-taça onde aparecia a parte de cima de peitos perfeitos, nem grandes nem pequenos como os meus. Ficava horas a fio olhando e sonhando com um sutiã daqueles.Hoje eles já vêm com truques e os peitos sobem, ficam juntos, separados.Os sutiãs já vem grudados nas roupas e se a gente se movimenta muito rápido os peitos não acompanham a roupa !!!
              Também ficava fascinada com uma folha de revista que guardei durante anos, mostrando uma garotinha deitada de bruços na terra, embaixo de uma árvore gigante. A menina acompanhava o trajeto de uma formiga levando uma folha maior que ela. Eu conseguia imaginar o destino final da folha. Meu pensamento vagava sem compromisso.
               Em outra ocasião sonhava com um namorado de olhos azuis infinitos cabelos penteados com muito cuidado, dentes brancos, sorriso farto. Ele sempre aparecia em meus sonhos e ficava tão real que quase podia tocá-lo. Procurei-o pelas ruas, bares, cidades, nas festas, nos carnavais... Um dia esqueci e perdi o moço de olhos azuis.    
                Às vezes pensava que tinha nascido de um repolho, de tão pouca importância que dava à família. Na verdade, eu dava importância sim, mas pais e filhos era uma história muito complicada que eu queria entender, precisava entender, mas ao mesmo tempo achava assustador que filhos fossem de total responsabilidade dos pais, como a mãe dizia.             
               Nada foi planejado ou sonhado. Quando dei por mim, já estava casada aos dezessete anos.Com um pouco de esforço e desprendimento de algumas particularidades, meu marido e eu formávamos um casal tranqüilo. É claro também,  que desde lá eu achava preferível correr grandes riscos à satisfação de pequenos momentos de paz, frutos da rotina. 
               Na verdade, pensava que nosso  casamento  era um casamento de meio expediente.
             Queria sim era viver, vibrar, amar, participar, balançar as estruturas! Não queria organizar o pensamento, queria que ele viesse assim meio mutilado, desconexo, insinuante... Mas ainda bem que as coisas iam tomando outro rumo e aprendi que família era feito catapora; uma vez pegada, ficava com marcas para sempre.
             Hoje entendo que construir uma família é um desafio muito especial. Precisamos como agricultores, pôr mãos à obra, às vezes no barro ou esperando a chuva que não vem pra combater a seca que mata e a peste que estrangula. Mas eu já sabia que quando a semente espia lá da terra escura e começa a crescer com folhinhas ao vento e caules fortes tudo passa a ter outro sentido.  
                Nem sei como pude um dia arrumar as malas e partir em busca de uma outra vida. Deixei para traz vinte anos de sonhos e fantasias, deixei família e com um mapa na mão e o marido na outra, escolhi Maringá para morar. O mapa era antigo e o rio Ivaí passava bem no meio da cidade. Isso nos dava um alento, em caso de necessidade a gente pescaria pra comer!
                Assim que descemos do ônibus vi a cidade mais linda do mundo! Com a mala no chão e sentada num banco da praça senti  que lá era meu lugar.    A terra vermelha formou logo um visgo em meus pés que até hoje teimam em deixar rastros. O verde era tão verde que a esperança já começava a acontecer em mim. Vim para criar laços, compassos, viver, amar e construir a minha história.Historia que guardo com carinho e que aos poucos vou novamente compartilhando com vcs amigos queridos.
             Em Maringá eu não precisava saber o caminho das ruas. As ruas sabiam o meu caminho! da mesma forma também fui aprendendo o caminho de volta à casa de meus pais buscando as auroras que moravam dentro de mim.