Go back to Brasil
Estou de malas prontas... De minha janela preferida, tomo um vinho, vejo a neve cair e aguardo o senhor Paulo que virá me buscar para tomar o vôo em Boston me levando de volta ao Brasil. A contagem agora é regressiva. Há um mês estou fora de casa. Sei que no Brasil chove pra caramba! Mesmo assim, não vejo a hora de amassar meu cachorrinho e minha família. Já vejo minha casa...
Ah como amo minha casa!. Passo quase todo tempo de minha vida nela. É um lugar onde me sinto em paz, pelo senso de intimidade que o ambiente me proporciona. Posso ser feliz lá e orgulhosa pelo que construí com muita obstinação. Há marcas e lembranças alheias. Minha casa é uma das expressões mais reveladoras de mim. Cada detalhe significa um instante da minha vida, um gesto meu, uma fraqueza, uma escolha, um momento de amor e felicidade, uma saudade de filha...
Se alguém entra em minha casa é como se estivesse entrando em minha alma, caminhando dentro de mim, descobrindo quem eu sou. Mas não só os objetos que a povoam são lembranças pessoais, a própria casa também; suas cores e seus revestimentos. Tudo são relíquias, uma grande parte escolhida em reunião com amigos queridos. Amigos tão antigos! E nos amamos tanto, que são capazes de compreender as minhas ânsias domésticas mais sutis, minhas necessidades de beleza, proporcionando-me maior refinamento em minha sensibilidade estética. Adivinham as cores que me dão prazer, as texturas que me agradam, o meu sentido de conforto e aconchego. A beleza simples, o despojamento, a coragem de ousar. Tudo foi pensado, conversado, calculado, sonhado e realizado.
Minha casa é como um livro que escrevi ou a filha que criei.
Morar comigo me causa imensa satisfação!
Meu quatro patas e orelhudo companheiro também ama nossa casa. Sabe que é dono e compartilhou com tudo fazendo vários xixis nos contra-pisos e pisos aprovando as reformas. As orelhas pesadas de cimento indicavam quantas vistorias eram feitas. Agora que tudo está pronto, deita feliz ao meu lado, me olha no fundo dos meus olhos e diz que tudo está muito bem. Que é uma casa feliz. Esta é a casa que me espera!
Sigo para Boston numa van muito moderna, assistindo a um DVD da Marisa Monte e olhando para os lados vejo a neve vestindo de branco as árvores e o asfalto. É uma visão de uma beleza infinita! Não dá pra se perder de DEUS no meio dessa cor e imagem...
A Ana Maria Braga vive dizendo que quando a gente pensa que sabe todas as respostas vem a vida e muda todas as perguntas ... O coração descobre que pode andar aos pulos e se aquietar por coisas poucas e bobas...
Agora, já das janelas do aeroporto, vejo o mar sereno e uma tarde que se esconde exatamente às quatro da tarde.
A meu lado está um velhinho calçando tênis e de gravata-borboleta. Compenetrado, desvenda os mistérios da astronomia que a revista lhe traz. A maioria das pessoas gasta seu tempo falando ao celular, algumas poucas conversam, pensam ou lêem. Consigo entender uma ou outra palavra do que falam... Até agora nenhum brasileiro à vista!
Os aviões passeiam naturalmente pela pista imensa como se fossem carros, dando lugar uns aos outros e no céu também é assim, só que surgem rápidos como mágica bem feita!
Chapéus panamás se misturam aos gorros, bonés e lenços. Raças se misturam formando um mundo que se encontra tendo como única semelhança, a sala de espera do aeroporto. Ninguém sente vontade ou necessidade de falar. As crianças comem o tempo todo! Os velhos cochilam, as mulheres cuidam das bagagens e dos filhos. Os homens prestam atenção aos informes do tempo e vôos. A informalidade dos passageiros da classe econômica se faz notar pelo uso de tênis... Tanta gente passa por mim; um homem gordo de camisa do Havaí, bermudas curtas e sandálias. Uma mulher ruiva imensa, de casaco de peles quase caindo dos ombros. Um velhinho flácido e simpático desfila de meias Lupo e tênis. Crianças puxadas pelas mães sem paciência e de frasqueira cor de rosas... A qualquer momento desses serei eu o alvo de outros olhos entediados. Alguém há de perceber que minha barriga saltou fora da calça jeans que há um mês atrás servia. É o preço da farra de mesa e copo que vivi.
Na passarela formada ao acaso, ainda vi uma mulher toda de preto que andava com passos curtos e rápidos, como os das freiras da minha infância... Lembro perfeitamente da curiosidade que assaltava nossos corações adolescentes...
Queria muito conhecer a intimidade da clausura do colégio onde estudei. Tudo tão proibido e distante de nós...
Já dentro do avião que me levou a Miami encontrei vários brasileiros que vieram passar o Natal com seus familiares. Gente cansada, envelhecida pelos maus tratos da vida. Gente que volta pra casa sem saber se devia ter vindo. Gente com medo da língua estrangeira, do vôo, de aeroporto, de se perder, gente que nem pensou em se encontrar...
O lugar ao meu lado está vago. Agora, nele repousa minha bolsa do nordeste denunciando minha origem. Segui as normas do vôo e peço a Deus que façamos uma boa viagem apesar do mau tempo.
Posso ver Boston se distanciando, cercada pelo mar, com as luzes acesas e branca de neve... O nariz do avião já fura o cerco das nuvens, os flocos de neve batem suaves nas asas deste pássaro intemível.
Uma chilena come um cheese-tudo que veio em sua bagagem de mão.Com a trepidação da nave, imagino a tempestade que se forma na barriga dela...
Uma aeromoça com fones de ouvido para filme passa e eu faço um gesto, pedindo um, ela diz que custa cinco dólares. Minha vontade passa na hora! Sinto muitas dores nas costas. Resultado de movimentos errados e a sobrecarga das bagagens. Minha coluna produziu vários sons me avisando e eu só penso no “tylenol pm”que está na bagagem. Preciso urgentemente deles...
Bendito Chico Buarque, quando disse que a saudade é o revés de um parto... No parto a gente ganha, na saudade a gente perde. As lágrimas correm soltas pela minha cara, sem reservas. Outra vez preciso me desligar da filha. Só assim vamos crescer. Respirar fundo e tocar em frente. A aprendizagem só é adquirida se passarmos por grandes conflitos e dificuldades. Aí sim, podemos dizer que aprendemos.
Nesse momento minha alma dói tanto quanto meu corpo, meus ossos. Nesse tempo de inverno, houve também inverno em mim... Sinto-me cansada, sem energia, pesada, doente, respirar fundo dói muito. Minha vida não era minha e de ninguém. Meu gerador próprio de energias andava fraco e eu precisava constantemente da energia da Ana pra me fortalecer. Não era justo com ela. Cada um precisa produzir sua própria energia. Senão, não dá pra somar... A gente veio ao mundo pra vencer os próprios obstáculos, caminhar com as próprias pernas. Aí sim, faz sentido esta vida! Precisamos correr riscos diferentes e lá na frente nos encontrarmos outra vez para matar a saudade dar longos abraços, muitas risadas e comparar o rumo das nossas prosas...
Claro que ao lembrar de minha filha com dois ou três anos de idade, me vem à memória uma garotinha loira com o cabelo cacheado, olhos esverdeados e curiosos. Risada limpa e solta como uma cascata cristalina Observava tudo. Via tudo. Me sabia como ninguém!
Pedia sempre em minhas preces que ela caminhasse diante da vida com a mesma firmeza com que decidia as brincadeiras e seus brinquedos.
Aos sete anos seu jeito justiceiro e de muitos amigos fazia de nossa casa um verdadeiro mundo de faz de contas. Todas as crianças vibravam com as reinações de minha “narizinho” que morria de medo da cuca e se deliciava com o visconde de sabugosa.
Especial era também o tratamento dispensados aos avós que eram de açúcar e afeto. É lógico que eles a conquistavam também pelo estômago e pelas aventuras carregadas de fantasias. O avô fazia pães com formato de cachorro, o cachorro tinha os olhos de feijão preto, tinha pipi e tudo !!
Havia uma criação de codornas que eram responsáveis por belas conservas feitas pela avó e neta. As codornas não duraram muito porque Mila, sua prima, resolveu abrir a gaiola pra que elas pudessem passear um pouco...
Aninha tinha um prazer infinito de andar atrás da avó que mesmo com passos lentos, ainda assim, se prestava a tantas brincadeiras como a de afirmar que velho não tinha bunda e fazer o impossível pra que ela acreditasse naquilo!
A casa dos avós era abrigo seguro não só de sonhos como de muitos bichos que eram rejeitados lá em casa. Uma vez levou um gatinho, o Tiatino, pra viver com o avô, mas o Tiatino não gostou da mudança e sumiu levando consigo a saudade de uma garotinha doce que ficou rezando para o Santo Antonio trazê-lo de volta .
Ana teve uma infância rica e recheada de todos os encantos que uma criança merece.
Na adolescência enfrentamos algumas dificuldades... Período confuso, nuvens escuras pairavam sobre nossas cabeças. Mãe com uma vontade louca de voar. Filha insegura querendo presença de mãe...
Como o terreno era fértil e o amor bem semeado, logo nos encontramos outra vez e nos amamos de tal forma que era uma verdadeira delícia morarmos juntas.
Sabíamos que naquela época não cabia mais ninguém na casa além do Ypon, um cooker preto e branco orelhudo, guloso e curioso que passava o tempo todo me olhando com um olhar tão carente que às vezes, chegava a pensar que ele sabia o que eu estava pensando.
Em casa todo mundo sabia que cachorro era feito pra se festejar! Sem festa e sem brincadeira o cachorro murcha, fica sem graça que nem planta sem água.
É claro que Ypon tomou conta da casa e de todos. Recuso-me acreditar que ele tenha herdado dos pais os dons que achamos tão genuínos, como erguer as orelhas sempre que era convidado para ir à casa da Bisa.
Adquiri o hábito de conversar com ele horas e horas, à sua e a minha maneira. Adorava ver seu olhar revelando a vontade de comer coisas açucaradas como bolacha de mel.
Como eram os primeiros momentos de curtir minha tão merecida aposentadoria, passava horas a fio observando meu cachorro e minha filha.
Houve uma época que ela resolveu fazer aulas de pintura no que resultou em metade de uma tartaruga pintada e um banco alto que morava em seu quarto servindo de apoio para o telefone. Pintar o banco significava uma verdadeira catarse. Cada perna recebia infinitas cores. A serenidade de sua alma dependia da mistura de cores que ela fazia. Cada nova cor ou pedaço do banco representava um sentimento de aventura a sair de uma gaveta bem fechada. Representava uma vontade guardada que avançava em direção a liberdade tão questionada em sua alma sedenta de grandes vôos.
Meu coração ficava apertado e acompanhava seus movimentos sorrateiramente.
Tinha vontade de ajudá-la a vencer os obstáculos, mas sabia que o casulo só se desprende da borboleta quando ela está pronta para voar.
E na verdade, quem estava voando agora era eu e querendo mais do que nunca pisar em terra firme. Dar aconchego pra minha alma passarinheira.


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