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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O pai mora na segunda nuvem, à esquerda

          O pai, criatura de boa paz. A primeira vista, podia-se afirmar que além de boa índole era também  influenciável. Grande engano! Só fazia o que lhe agradava. Olhos azuis infinitos e ingênuos, o ar quase distante, suavemente desligado. Atrás daquela aparência displicente, com certeza, morava um homem que se protegia de tudo o que consideragva chato. Só lia o que queria, só comia o que gostava.  Falava sem medo e sem vontade de agradar. Mulher, filhos e netos compunham o cenário da família, mas não o impediam de sua vida própria.
A grande verdade é que o pai era profunda e orgulhosamente só... Na vida profissional fez infinitas tentativas: foi alfaiate, pedreiro, agrimensor, carpinteiro, e muito mais. Adorava reformar as casas que morávamos de aluguel; fazia sacada, construía galinheiros, transformava janelas em portas, de uma peça fazia duas que davam numa terceira e levava minha mãe à loucura com todos aqueles labirintos!
Como alfaiate também não obteve sucesso: na época que fazia o curso que o habilitaria na profissão estava noivo e pelo visto, bastante danado! Escondido da noiva resolveu ir a uma cidade vizinha brincar o carnaval sem dar na vista. Coitado! Na volta, todos os foliões empoleirados na caçamba de um caminhão se depararam com uma corda amarrada de um lado ao outro da rua. Todos se abaixaram mais que depressa para não serem degolados, com exceção de meu pai que resolveu apenas arquear o corpo para trás, num golpe de contorcionismo. Golpe mal calculado.  Resultado: a corda derrubou-o do caminhão e lá ficou ele com várias seqüelas do tombo! Inclusive as convulsões que o perseguiram durante anos depois de casado.
         Um belo dia, o pai, por milagre das orações e xaropes de curandeiros, sarou!  E lá vivia ele apaixonado por política! Getulista ferrenho! E Brizola então?!
Lembro agora que, durante o programa do Repórter Esso, éramos proibidos até de respirar perto dele... Momentos que aproveitávamos pra fazer diabruras! Sem medo de sermos pegos.  Aquela paixão por notícias o acompanhou para sempre. O que mais me surpreendia era como as notícias chegavam aos seus ouvidos. Elas adquiriam um novo significado, um novo tom!
Nós dois fazíamos aniversários bem próximos, mas ele sempre deixava que eu comemorasse o meu, mostrando uma generosidade que era sem igual.
Agora que ele mora na segunda nuvem à esquerda percebemos que suas marcas foram folclóricas e quase lendárias junto de netos e bisnetos. As netas guardam com carinho as fotos e lembranças da casinha de bonecas construída no quintal da casa que dava até pra morar dentro! Lá havia fogão à lenha e tudo o mais. Eram lá que as primeiras vontades de brincar de gente grande das netas tomaram corpo...!

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