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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Buscando as Auroras

              Posso dizer que, assim que dei conta de mim, minha mãe foi logo me dizendo disse que eu nascera empelicada. Segundo ela era uma benção! Apesar do jeito raquítico e desengonçado, decidi logo que seria guerreira!
               Minha primeira grande batalha foi brigar pelo colo que em menos de um ano já precisei dividir com outro irmão.
              Da minha infância trago poucas lembranças daquelas que ficam lá guardadas num bolsão cheio de memórias e que às vezes,quando me distraio, elas aparecem como nada querendo...
               Até os nove anos minha aparência era franzina. Usava tranças loiras e no nariz quase arrebitado um monte de sardas. Lembro também que tinha mãos finas e dedos longos que alcançavam o miolo do pão com a maior facilidade. Os pés, esses sim, me deram muito trabalho para mantê-los limpos. Passava grande parte do meu tempo empoleirada no tanque esfregando-os. Eram tão brancos e macios que pisar no chão descalça era desesperador!
              Lembro bem do meu vestido domingueiro. Era xadrez e na frente tinha um babadinho que fazia um grande V de onde saiam duas fitas para fazer um laço nas costas. Laço este que minha mãe fazia questão de mantê-lo bem arrumado! Que dificuldade! Eu vivia desarrumada, desmanchada... Acho que nunca gostei muito de laços.
               Ah meus olhos eram grandes, um pouco assustados, esverdeados como os de meus dois irmãos mais velhos. Olhos de quem queria ver o que os outros não podiam ver... Meus olhos eram capazes de ver os cabelos das bonecas feitas de espiga de milho balançar ao vento, lindos como quê, enquanto eu corria com elas. Todos os brinquedos eram feitos por nós; bonecas de abóbora-menina, sanfonas de folha de cana e outros tantos.
                       Eu lembro que, numa certa fase, toda vez (foram poucas, confesso) que eu tinha essa sensação de que ninguém me entendia e ficava tão exageradamente sem rumo que ficava namorando a idéia  de morrer só pra ver os outros se martirizando por não terem me dado a devida atenção, ahahaha...Era  muito dramática e teatral! Deitava no chão escrevia um bilhete dizendo: eu morri. De olhos fechados, no escuro ficava um tempão esperando que me encontrassem.
              Também fugi de casa depois de reprovar no exame de admissão no ginásio. Ia fugindo e olhando pra trás na esperança que me encontrassem logo, e logo fossem dizendo que isso não era nada, que a culpa não era minha, que o professor Lauro era quem me perseguia, etecetera e tal.
                Por aí se vê que a escola nunca foi o meu forte e tampouco o meu fraco. Graças a minha mãe e a boa sorte de ter nascido empelicada, terminei meus estudos sem grandes dificuldades.     Além da tabuada, na minha memória ficaram algumas regras de gramática e as aulas de literatura que mais tarde me levaram à grandes vôos..
                 Ficaram na memória os dias de chuva, que por mim nunca deviam ser limitados! Pois eu os adorava!  Fazia barcos de papel pra largar na enxurrada e imaginava que eles iam percorrer o mundo em busca de um tesouro, mas eles naufragavam ou se perdiam.
                Mãe tinha verdadeiro pavor de chuva, raios, trovoes e tempestades. Sempre tinha muitas goteiras dentro de casa, principalmente aquela sobre o colchão, que parecia xixi... E fazer xixi na cama era uma desonra!      
                Ela só sossegava quando via os cinco filhos guardados e seguros quase embaixo de sua saia, façanha impossível com o pai!
               Depois que cresci, os dias de chuva propiciavam andar de galochas brancas, uma capa de chuva de gabardine azul clara com sombrinha da mesma cor, impermeabilizando o tempo lá fora do tempo daqui de dentro.
              Como toda adolescência de toda menina da minha época, passei escondendo os peitos que cresciam timidamente, a menstruação que me envergonhava muito e outros sonhos pecaminosos que fiz questão de esconder em gavetas com chaves perdidas.
              A infância e adolescência deixam rastros em nossa memória... Lembro das poucas revistas que li.   Tinha  uma que trazia uma moça usando um sutiã meia-taça onde aparecia a parte de cima de peitos perfeitos, nem grandes nem pequenos como os meus. Ficava horas a fio olhando e sonhando com um sutiã daqueles.Hoje eles já vêm com truques e os peitos sobem, ficam juntos, separados.Os sutiãs já vem grudados nas roupas e se a gente se movimenta muito rápido os peitos não acompanham a roupa !!!
              Também ficava fascinada com uma folha de revista que guardei durante anos, mostrando uma garotinha deitada de bruços na terra, embaixo de uma árvore gigante. A menina acompanhava o trajeto de uma formiga levando uma folha maior que ela. Eu conseguia imaginar o destino final da folha. Meu pensamento vagava sem compromisso.
               Em outra ocasião sonhava com um namorado de olhos azuis infinitos cabelos penteados com muito cuidado, dentes brancos, sorriso farto. Ele sempre aparecia em meus sonhos e ficava tão real que quase podia tocá-lo. Procurei-o pelas ruas, bares, cidades, nas festas, nos carnavais... Um dia esqueci e perdi o moço de olhos azuis.    
                Às vezes pensava que tinha nascido de um repolho, de tão pouca importância que dava à família. Na verdade, eu dava importância sim, mas pais e filhos era uma história muito complicada que eu queria entender, precisava entender, mas ao mesmo tempo achava assustador que filhos fossem de total responsabilidade dos pais, como a mãe dizia.             
               Nada foi planejado ou sonhado. Quando dei por mim, já estava casada aos dezessete anos.Com um pouco de esforço e desprendimento de algumas particularidades, meu marido e eu formávamos um casal tranqüilo. É claro também,  que desde lá eu achava preferível correr grandes riscos à satisfação de pequenos momentos de paz, frutos da rotina. 
               Na verdade, pensava que nosso  casamento  era um casamento de meio expediente.
             Queria sim era viver, vibrar, amar, participar, balançar as estruturas! Não queria organizar o pensamento, queria que ele viesse assim meio mutilado, desconexo, insinuante... Mas ainda bem que as coisas iam tomando outro rumo e aprendi que família era feito catapora; uma vez pegada, ficava com marcas para sempre.
             Hoje entendo que construir uma família é um desafio muito especial. Precisamos como agricultores, pôr mãos à obra, às vezes no barro ou esperando a chuva que não vem pra combater a seca que mata e a peste que estrangula. Mas eu já sabia que quando a semente espia lá da terra escura e começa a crescer com folhinhas ao vento e caules fortes tudo passa a ter outro sentido.  
                Nem sei como pude um dia arrumar as malas e partir em busca de uma outra vida. Deixei para traz vinte anos de sonhos e fantasias, deixei família e com um mapa na mão e o marido na outra, escolhi Maringá para morar. O mapa era antigo e o rio Ivaí passava bem no meio da cidade. Isso nos dava um alento, em caso de necessidade a gente pescaria pra comer!
                Assim que descemos do ônibus vi a cidade mais linda do mundo! Com a mala no chão e sentada num banco da praça senti  que lá era meu lugar.    A terra vermelha formou logo um visgo em meus pés que até hoje teimam em deixar rastros. O verde era tão verde que a esperança já começava a acontecer em mim. Vim para criar laços, compassos, viver, amar e construir a minha história.Historia que guardo com carinho e que aos poucos vou novamente compartilhando com vcs amigos queridos.
             Em Maringá eu não precisava saber o caminho das ruas. As ruas sabiam o meu caminho! da mesma forma também fui aprendendo o caminho de volta à casa de meus pais buscando as auroras que moravam dentro de mim.

2 comentários:

  1. tão linda....tão intensa...."segredos ocultos com chaves perdidas"...algumas a gente perde, outras se perdem da gente e assim seguimos vivendo como podemos até chegarmos no "como quisermos". Vc ja conseguiu amiga. Te admiro

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  2. Linda, perdida e reencontrada amiga! Estás em nova casa, e nem me contaste!... Perdão por minha ausência no lar antigo, mas decididamente não tenho teu talento! Que pena que não estamos mais perto, tenho certeza que poderíamos compartilhar bons momentos. Faltou a continuidade causada pela distância. Peninha... Bjsssss

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