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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

É um trololó...

             Aqui em casa tem sempre café com trololó. Trololó é um jeito de falar. Fala sem objetivo definido, como o vôo das aves  indo ao sabor do vento. Palavras acontecendo. Um jeito nordestino de ser. Para o trololó não existe 'ordem do dia', não há conclusões, não há decisões. O trololó não quer chegar a nenhum lugar.  Encontra sua felicidade no próprio trololó. Como andar de barco a vela em que o bom não é chegar mas o movimento. A coisa não está nem na partida nem na chegada, mas na travessia.
       A gente do sul tem uma fala com um objetivo preciso: ter razão. Ganhar o argumento. Convencer. Há grande chance da prosa da gente do sul terminar mal. Um ganha, fica feliz e se sente superior. O outro perde, fica com raiva e se sente inferior e assim vai num toma lá da cá.
      O grande lance do trololó é ir em frente num vai e vem feito de um prazer permanente que não acaba nunca. Ganhar na prosa significa o fim do brinquedo. Curtir um trololó é o grande, o mega, ultra Power segredo das relações amorosas e das amizades construídas sem pressa... Nietzsche dizia que quando uma pessoa se prepara pra casar a única pergunta importante que devia ser feita é "terei prazer em conversar com essa pessoa quando eu for velho?" E não é que ele tinha razão?  
      Outro dia aqui em casa a gente começou um trololó sobre o "Quero- quero".  Quero-Quero é o nome de um pássaro de pernas compridas que pode ser encontrado andando. Andando feito gente pelos campos, melhor dizendo, pelos pampas gaúchos. O nome já está dizendo: quero- quero.   Querer é desejar. As crianças mais do que ninguém são movidas pelo querer.  Elas parecem ter a alma habitada pelo querer. Querem muito! querem tudo!
       Outra coisa curiosa é que o quero-quero tem a voz estridente que só!
       Meu irmão mais velho, diria  que esse bichinho cantador também é chamado de sentinela dos pampas... Sempre dando sinais de quem se aproxima.
       Quando criança, lá em casa, o pai contava uma história da Sagrada Família que ao fugir ,muitas vezes precisava se esconder dos soldados do Rei Herodes. Numa dessas vezes o pai do menino Jesus pediu pra todos os bichos que fizessem silencio, que não cantassem. Todos obedeceram prontamente, mas o Quero-quero, não: queria por que queria cantar. E dizia: Quero! Quero! E tanto disse que foi amaldiçoado: ficou querendo até hoje!
      De um trololó para o outro é só fazer reticências, mudar o rumo da prosa e pronto!

04/03/11

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