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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Mercedita, Mercedita!



                   Não podia existir melhor lugar pra comemorar  os anos de vida dessa mulher!!!!!! Quem tinha olhos de ver, esbarrou com “CIDO” que também festejava o grande encontro da  família  LOPES, tão bamba por natureza e por vontade!                                                                                                                                                              Mercedes, como sempre, chegou mais cedo  na Casa de bamba.faceira,regateira, tão espanhola, tão de cabelo nas ventas e tudo o mais!   Toda emoção! Sem óculos foi logo chegando e sentando bem lá no fundo, nesse dia não seguiu seu costume ; não passou  revista nas tropas! Ficou lá sentada e toda prosa! Claro que esperava uma noite muito especial pois estava ao lado do filho que veio de  MIAMI  e que não fez como a Luiza,que mora no Canadá!
                      Quando chamada para dentro da roda de samba entrou logo dançando! Mas naquela noite não era uma dança qqr! Era muito mais que a dança da vassoura que tão  bem conhecemos... Mercedes começou sua dança passando pelos braços de seus seis filhos queridos... Um a um foram revezando e abrindo passagem para novas emoções!   Nesta ciranda de emoções foram se achegando um a um,todos irmãos, filhos, netos, sobrinhos, noras, genros, amigos, que  carregando o coração na mão, vieram  ofertá-lo para  Mercedita, mulher tão singular... Pensando bem ela é tão singular e Tb tão  plural!!!
Seus olhos pulavam pelo ar como um passarinho de galho em galho , o abraço dela era apertado como quê!
               Na cara,no veludo escondido entre as rugas trazia também a marca  de uma vida vivida com força!   
           É claro que como toda família, a de Mercedes também tem suas diferenças, no futebol, na política e na religião. Há, contudo, um campo em que rola a mais perfeita harmonia. É no mundo da música! Os festejos e comemorações sempre têm um lugar específico para canto, dança e batuque. Todo mundo nessa casa sabe fazer alguma coisa relacionada à música. Um mundo canta, outro mundo dança e toca!  Com uma família assim, posso afirmar, com muito orgulho que fui feliz quando lá atrás sugeri, inspirada na música de  Martinho da Vila, “na nossa casa, todo mundo é bamba”,a  criação de um espaço com o nome de  CASA DE BAMBA,porque na casa de bamba é assim.... Nada mais natural, portanto, que homenagear a dona de oitenta e muitos anos com algumas canções que contam uma história tão intensa:  

               Mercedes, a quinta filha de Francisco Serveira Carpena e Tereza Del Cid Castanheda nasceu aos 22 de janeiro de 1928, em Jaú-SP.  Mas sua história começa antes. Por isso, vamos retornar, volver à Espanha, terra de seus pais.
               Quando Bruna, com a voz carregada de emoção cantou “volver a los desessete “Mercedes viajou num tempo com asas que a levou da Espanha até o interior de São Paulo, onde nasceu e até o início da década de 50. Lá onde a sua juventude foi marcada por muito trabalho e muitos bailes.

               A família cantando “o baile da saudade” num flashback ...trouxe os anos 50, Quando a família Serveira Delci deixando o estado de São Paulo, veio fixar moradia no noroeste do Paraná (primeiro Ourizona, depois Mandaguaçu). Essa mudança para uma terra em que havia tudo por fazer foi dolorosa, motivo de muitas lágrimas. Amigos, namorados, baladas, agora só existiam nas lembranças. Em Mandaguaçu, a jovem MERCEDES buscou afogar suas mágoas na costura, em um quartinho de frente para a rua, no Hotel Central, de propriedade da família. Em frente ao hotel, situado à Rua Bernardino Bogo, havia um escritório de contabilidade, que tinha como um dos sócios um outro paulista, de Presidente Prudente.
            Aparecido também viera havia pouco para a cidade, onde sonhava construir seu futuro. Não tardou a reparar na mocinha loira, magra, de olhos azuis, filha do dono do hotel. Mas, havia um empecilho ao namoro. Aparecido não tinha família na cidade, e não parecia ser muito confiável, pois aos 24 anos já ostentava uma saliente barriga e uma calvície bem pronunciada, o que fazia com que todos julgassem que ele já era casado. Mas,... Mercedes não resistiu aos encantos do careca.


               Casaram-se em 1954 e tiveram 6 filhos, três homens e três mulheres. Com toda essa filharada e o dinheiro curto, a vida não era fácil. Os ofícios do marido se sucederam. Depois do escritório, vieram: a fábrica de enxovais de batizado, o Bazar dos Presentes (que viria a ser consumido pelo fogo), o cargo de confiança na Prefeitura Municipal, que duraria 10 anos. As crianças cresciam e estudavam, enquanto o casal trabalhava. Mercedes ajudava como podia: cuidava da casa, costurava, cozinhava e lavava, lavava muita roupa...


         Depois de 10 anos trabalhando na Prefeitura, Aparecido foi aprovado para um concurso em um Tabelionato e Registro Civil, no distrito de Iguatemi, para onde a família se transferiu.
             A situação estava um pouco melhor, mas as demandas da meninada eram grandes. Mercedes concluiu que não bastava fazer economia (com empregada, com o pão e o sabão feitos em casa, com os reaproveitamentos de roupas). Parecia urgente ganhar seu próprio dinheiro, pra providenciar o enxoval das meninas, comprar uma roupinha melhor, fazer alguma extravagância fora do orçamento. Considerava que era necessário ajudar a trazer dinheiro pra dentro de casa.
Assim, passou a comprar roupas usadas, que eram reformadas e vendidas; também fazia viagens a Ibitinga, onde comprava roupas de cama e mesa e revendia às mocinhas casadoiras do distrito. Chegou também a se aventurar no ramo de revenda de automóveis!!! E olhem que ela não distinguia um Corcel de um Del Rey!!!
            Essa mulher era impossível! Estava sempre agitada, com alguma novidade. Se a irmã Angelina passasse pela casa e a convidasse para uma viagem, ela não tinha dúvida: imediatamente, arrumava umas roupas na mochila e viajava. Claro que, antes de sair, deixava um bilhete, mais ou menos assim: “Fui pra Tupi. Volto sábado. Tem feijão e bife temperado na geladeira. SE VIREM!”.
            Certa vez, chegou ao cúmulo de submeter-se a uma cirurgia do ouvido, sem comunicar ao marido e aos filhos, que só ficaram sabendo quando a secretária da clínica telefonou para avisar que tudo tinha corrido bem. Enfim, era uma mulher autônoma demais, independente demais para sua época. Nunca foi de ouvir passivamente uma argumentação, sempre retrucava. Que mulher danada Aparecido havia arrumado!


         Depois que os 6 filhos se casaram, os dois passaram a sair e se divertir mais. Contudo, as diferenças entre ambos afloraram, e veio a separação... Aos sessenta e cinco anos, Mercedes viu que era necessário começar de novo. Levantar, sacudir a poeira, dar a volta por cima... com o passar do tempo,  os dois se tornaram bons amigos,Cido tinha uma namorada ,mas nunca morou com ela. Tentaram voltar algumas vezes, mas não deu certo. Viajavam juntos,saíam pra dançar e pra jantar,essas coisas que permanecem em famílias que constroem relações que vão além do tempo de vida juntos. Ele ia à casa dela e ela ia à dele. No Natal, os filhos passavam a meia-noite na casa dela e o dia seguinte no sítio dele. Ela virou palmeirense, como ele. Em certos domingos, ela fazia pipoca e os dois ficavam juntos assistindo aos jogos, na casa dela. Ele foi operado em novembro de 1998 e no ano seguinte partiu para a outra margem da vida!
          E eu que estive prestando também a última homenagem, tive a grande emoçao de ver Cido sentado na mureta junto à lápide, onde seu corpo repousaria... Lá estava ele, com um jeito feliz, aplaudindo  o chorinho que Geraldinho do Cavaco oferecia  com os olhos marejados  enquanto era  preparada a caminhada para  a outra vida! Cido estava feliz! Ele sabia que a morte não o enganara, pois a vida ia além dela!    


            Estava escrito que a família aqui na terra era sólida e que era hora de MERCEDES, com os filhos criados, independência financeira, casa própria, podia fazer tudo o que não havia sido possível fazer até então: associar-se a um clube, fazer uma cirurgia de varizes, e viajar, andar por terra, céu e mar, dentro e fora do país.


              Também era o momento de cantar muito, para espantar todos os fantasmas. Foi assim que entrou para o coral “Jovens de Ontem”, participou de festivais, subiu ao palco e cantou, soltou a voz.


              Era também hora de dançar. Primeiro, tímida e discretamente, no SESC ou no Clube do Vovô. Mas quando o filho Helington inaugurou sua “Casa de Bamba”, liberou geral! A menos que esteja adoentada, marca presença toda sexta-feira e todo sábado. Afinal, diz ela, vou ficar em casa fazendo o quê? Ela é uma espécie de madrinha da Casa de Bamba, querida por todos os que freqüentam o bar e sonho de todos os que desejam viver muito, viver bem, aprender sempre, ser feliz.
           E eu que também sou da família, também vim do nordeste pra festejar a MERCEDITA!!!  


 Parceria com Sonia Benites, Amiga/irmã

2 comentários:

  1. Iraci Carnelossi Brugin16 de fevereiro de 2012 às 13:06

    Parabéns a Senhora Mercedes que foi homenageada com tanto carinho das pessoas que a amam

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