Uma cena em uma das
enfermarias do hospital Laureano foi aos
poucos tomando conta de todos meus pensamentos. Mãe e filha de mãos dadas
aguardavam a hora de cirurgia. Nenhum remédio, nenhuma palavra podia ser maior
que o encontro dos olhos de Mayara e Maria José... Lágrimas que corriam mansas em suas faces e a seguir, rindo elas cantavam conosco as músicas que costumamos levar aos nossos queridos todas quintas feiras, pela manhã.
Uma onda de luz prateada enchia o quarto... De repente,
senti um desejo intenso de beijar a cabeça da filha... Em seguida, coloquei uma mão
sobre a cabeça da mãe, Maria José,e quando olhei pra minha mão, assim tão quieta,
vi outra mão que deslizava sobre a minha. Era uma mão gordinha, macia e bem familiar...
Era a mão de minha, Aurora, que estava me ensinando como fazer carinhos quentes!
Era minha vez de deixar as lágrimas rolarem soltas.
Engraçado... Quando ficamos mais velhos, as lágrimas nos
fazem companhia com mais freqüência... Lembro que, às vezes, me incomodava o
tanto que a mãe chorava.. O tanto que seus olhos ficavam marejados assim quase
do nada... Chorava com noticia boa. Chorava quando ficava triste, quando se
comovia com uma cena de novela. A dualidade que encontrava em Aurora era tanta,
que em fração de segundos passava das lagrimas ao riso. Sempre era um riso bom.
Risada com os olhos azuis e acinzentados: a cor cinza, eu penso que era origem
das lágrimas constantes que turvavam o olhar azul: assim como a chuva faz com a
água do mar...
Na verdade, quero chegar a um tempo mais longe. Um tempo que
chorar não era bom. Era feio. Quando alguém chorava, logo vinha a frase: não chora
não! Já vai passar... Vivi nesse tempo e vivo agora num novo tempo. O tempo que
chorar faz bem. Chorar lava a alma da gente. Chorar é também um jeito de se
conectar com o divino que há dentro de nós. É um jeito de segurar na mão de
Deus e acreditar que tudo vai passar sim!
Por isso, todas as vezes que vejo alguém chorando vou logo
abraçando , fazendo carinho com essa mão que está ficando cada dia mais gordinha...
E, aqui dentro, vou dizendo; chora, chora...
chora e confia que Deus está aqui e é ELE é MÃE também!!!
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