Dedico a pagina de hoje aos amigos Piola e Mariza Poltronieri
O namoro do Chico Buarque com a cantora ruiva Thais Gulin rendeu para gente a musica: ESSA PEQUENA, a letra vai aí abaixo e tem mais! Rendeu também a crônica "UM TEMPO SEM NOME" da escritora Rosiska Darcy de Oliveira sobre “o novo conceito de envelhecer”. Também segue abaixo.
O namoro do Chico Buarque com a cantora ruiva Thais Gulin rendeu para gente a musica: ESSA PEQUENA, a letra vai aí abaixo e tem mais! Rendeu também a crônica "UM TEMPO SEM NOME" da escritora Rosiska Darcy de Oliveira sobre “o novo conceito de envelhecer”. Também segue abaixo.
Essa Pequena
Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela
Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la
Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai
Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena
Um tempo sem nome
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena
Um tempo sem nome
Rosiska Darcy de Oliveira, O Globo, 21/01/12
"Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando
madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai
bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais
essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e
tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar
resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.
Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria
os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma
faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele
que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa
forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que
envelheça o alumbramento diante da vida .
Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o
mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo
criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que
escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem,
amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu
filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer?
Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.
A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário,
se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e
o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os
acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade
que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se
reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que
persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou
uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.
Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do
esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida —
a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da
cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de
cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural
e social que o avançar na idade provoca.
Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência
de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então, essa
depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a
velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos
de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos,
perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em um mundo
irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça
na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de
gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira
mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de
dela participar.
A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por
progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma
naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a
fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece.
Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza.
Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.
”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não
ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que
conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um
dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por
Marguerite Yourcenar.
Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é
segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera,
espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de
futuro, aguardando o dia da traição.Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora
literatura , ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não
se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não
encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida."
Obrigada, Rê!
ResponderExcluirA música e o texto são lindos.