Páginas

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Tributo à Aurora de sempre ...



         Olhos de cores estranhas; cinza pigmentados de marrom. Donos de muitos mistérios que guardavam marcas profundas de uma solidão de outras vidas.  Quando jovem, seu olhar era sombreado por grossas e escuras sobrancelhas... Ah, como tínhamos medo daquele olhar que tudo via! As tranças cinza-escuro enroladas em um esmerado penteado eram tudo o que a sua pouca vaidade permitia.
        Sua saga começou aos cinco anos quando perdeu a mãe. Perda irreparável não aceita e com gosto de traição.
        Penso que devia ter uma lei decretando que  mãe não devia acabar nunca!   
        Temperamento muito forte... Seu coração vinha acumulando mágoas da infância somadas com as da mocidade.  Passou infinitas dificuldades!     Ao casar juntou as mágoas antigas às novas e foi tocando em frente!
        A mãe preparou literalmente a gente dentro dela. Teve cinco filhos que somados ao marido a conta passou a ser seis.    
         Contava sempre que sua primeira casa própria nasceu do chão, da natureza, construída com o material que estava lá. Feita de maneira intuitiva, quase como as abelhas faziam sua colméia. Era uma casa de taipa. As frestas eram bem fechadas pro bicho barbeiro não fazer seu ninho.  
         Com o passar do tempo ficou perita nos acessórios: tinha também na casa um fogão à lenha e uma vassoura daquelas de gravetos(guanchuma). 
        Tinha uma árvore grande perto. Era uma árvore de erva mate. Lá ficava o poço e também o tanque. Preso nos galhos de erva mate um cesto de vime, berço do irmão primogênito, que dormia embalado por tangos que a mãe cantava rasgando o peito 
"... fumando espero aquele a quem mais quero... enquanto eu fumo, depressa a vida passa e a sombra da fumaça..."
         Com quarenta anos conseguiu terminar o curso de magistério! Mérito e glória dela! Sorte a nossa, pois passamos a ter uma mãe culta, além de todas as outras qualidades que já tinha. Assim nossa vida foi mudando lentamente.  
          Não sei bem como as coisas aconteciam quando éramos pequenos, onde mãe buscava forças, alimentos, tempo e vontade de tocar em frente. O certo era que sempre vencíamos as dificuldades, nos enroscávamos uns aos outros e esperávamos ser sacudidos por aquela mulher de vinte mãos.
         A música sempre teve o poder de tornar o tempo sem hora ou lugar, como dizia Mariza, uma filha do coração das muitas que teve. "... Ela cantava o ontem com gosto das manhãs frescas e perfumadas, seus cabelos brancos, penugem de um sabiá teimoso. A teimosia dos que adorava viver... Seu canto era um gorjeio maduro e solitário. Ela não tinha tempo, não tinha horário, não tinha limite, era luz que não se acabava... Mesmo quando soprava o vento. Era chuva que desabava e tinha veludo escondido na pele enrugada! Era água pura, ar puro, era beijo na cabeça dos filhos que chegavam buscando mel que era sempre farto!"
        Aos oitenta anos começou a viver as primeiras orgias noturnas... Fazia parte de um grupo de amigos que se reunia uma vez por mês para ouvir e fazer uma boa música, curtir um bom papo e saborear uma boa comida! Foram seus melhores momentos aqueles! Ela cantava sem nenhum constrangimento, pelo simples prazer de cantar e de fazer os outros felizes trazendo a música pungente que conheceu em outra época. Era música doída, dolente como a vida que se vivia. 
         Nossa Aurora foi tema de músicas da Casa de Bamba. Era assim que ela cantava feito Chiquinha Gonzaga "... ela partiu me abandonou assim... oh lua branca por quem és tens dó de mim..."  
          Aurora era agradavelmente gordinha e macia! Seus olhos eram de um cinza pálido com pontinhos marrons que deixavam a gente meio sem jeito, pois nunca se sabia bem o que eles escondiam. Lembro da voz dela, da presença, a fisionomia... Sempre teve a mesma idade. Sempre pensei que ia morrer menina.
          Gostava de vê-la sentada ao pé do túmulo de nossos mortos. Rezava e depois ficava um tempão fazendo companhia a eles.
         Vivia com a casa cheia de amigos e sempre com hóspedes que ela cuidava como ninguém. 
          Lá em casa as rosas falavam, sim!
          As rosas amarelas sempre tinham endereço certo quando morávamos longe. Eram descritas em cartas com todas as minúcias. Cor exata... Perfume... . Tamanho...  Porte.  As imagens ficavam gravadas na retina e nos olhos da imaginação que  ainda hoje me sirvo delas.
          Ah como elas sabiam plantar! Os dedos gordinhos estavam sempre sujos de terra. Eram dedos verdes!
           Cada filho e cada neto com seu canteiro preferido.
           Sentada no colo dela com suas mãos sobre meus cabelos ela conseguia me devolver para mim mesma.
           Mãos com o poder de curar qualquer dor sem uma palavraTão gordinhas! Fofinhas como pão feito em casa.   Mãos de costurar, de transformar o velho no novo. Mãos de fazer crochê.  Mãos de carinho. Também batiam claras, manteiga e tudo o mais.  A roupa passada parecia nunca ter sido usada.Sabia cantar,fazer sabão,  ambrosia  e também carinhos quentes. 
        Quando novas, aquelas mãos escreviam com perfeição letras harmoniosas e desenhadas formando palavras carregadas de significado.. Foram as mesmas mãos que em cima das minhas me apresentaram o mundo das letras e depois o das palavras sempre intensas.. As mesmas mãos também ajudaram as mãos de minha filha no caminho do ler e escrever.
         Quando suas mãos descansavam assim cruzadas no colo fofo, os  dedos polegares faziam um movimento de ir e vir em círculos... Penso que era a forma que ela encontrava pra guardar a ansiedade de tantas coisas sonhadas  e ainda não feitas.
        Ao deixar este mundo, aquelas mesmas mãos que eu tão bem conhecia, inertes, cruzadas sobre o peito, mais  uma vez  me diziam de importância de nossos atos silenciosos e caridosos,pois ao longo dos anos que viveu no mesmo  bairro deixou marcas lindas na vidas das pessoas. Muitas delas, só tomei conhecimento quando as via, anônimas e silenciosas prestando  uma ultima homenagem. Algumas sentiam necessidade de me dizer o quanto eram reconhecidas pelo conforto material e espiritual recebidos. Foi então quando entendi a importância da máxima “Não saiba a tua mão esquerda o que a direita faz”
        Um dia ela partiu... Sua alma como um passarinho foi pousando de galho em galho em direção ao céu... E é de lá que me cuida.  Sei também que hoje ela cuida dos jardins do segundo andar como gostava de dizer. Esteve sempre se preparando pra viver no paraíso e tenho certeza que  a morte não a enganou porque a vida foi além dela. 
      Partiu deixando muitas Auroras pelo caminho..
.     Somente depois de ter andado por esse mundo de tantas casas é que pude reconhecer a beleza da casa e das mãos de minha mãe.
     Agora, com tintas da palavra, transformo-a de simples pessoa de carne e osso que foi em personagem novamente e uso mais uma vez suas ferramentas para a construção de minha vida,do meu chão, no bom e no menos bom, no bastante e no pouco, no ganho e no perdido, naquilo que é defeito em mim, mas também naquilo que é qualidade e, com certeza, essas ferramentas posso usá-las para me tornar cada dia uma mãe e avó melhor e mais feliz. 


2 comentários:

  1. Amorosamente escrito esse texto, fico umedecida feito a terra que ela plantava seus verdes. Amar a Aurora foi e é um carinho em minha alma. Recordo de sua divertida sabedoria rumo a simplicidade: "Gosto de comer coisas molinhas. Oitenta e poucos anos mastigando me cansou."

    ResponderExcluir
  2. Lindo, Rê. A Aurora está em você.
    Feliz dia das Mães!
    Beijo grande.

    ResponderExcluir