Olhos de cores estranhas; cinza pigmentados de marrom. Donos de
muitos mistérios que guardavam marcas profundas de uma solidão de outras
vidas. Quando jovem, seu olhar era sombreado por grossas e escuras
sobrancelhas... Ah, como tínhamos medo daquele olhar que tudo via! As tranças
cinza-escuro enroladas em um esmerado penteado eram tudo o que a sua pouca
vaidade permitia.
Sua saga começou aos
cinco anos quando perdeu a mãe. Perda irreparável não aceita e com gosto de
traição.
Penso que devia ter uma lei
decretando que mãe não devia acabar nunca!
Temperamento muito forte... Seu
coração vinha acumulando mágoas da infância somadas com as da mocidade.
Passou infinitas dificuldades! Ao casar juntou as
mágoas antigas às novas e foi tocando em frente!
A mãe preparou literalmente a gente
dentro dela. Teve cinco filhos que somados ao marido a conta passou a ser
seis.
Contava sempre
que sua primeira casa própria nasceu do chão, da natureza, construída com o
material que estava lá. Feita de maneira intuitiva, quase como as abelhas
faziam sua colméia. Era uma casa de taipa. As frestas eram bem fechadas pro
bicho barbeiro não fazer seu ninho.
Com o passar do
tempo ficou perita nos acessórios: tinha também na casa um fogão à lenha e uma
vassoura daquelas de gravetos(guanchuma).
Tinha uma árvore grande perto. Era
uma árvore de erva mate. Lá ficava o poço e também o tanque. Preso nos galhos
de erva mate um cesto de vime, berço do irmão primogênito, que dormia embalado
por tangos que a mãe cantava rasgando o peito
"... fumando espero aquele a quem mais quero... enquanto eu fumo, depressa a vida passa e a sombra da fumaça..."
"... fumando espero aquele a quem mais quero... enquanto eu fumo, depressa a vida passa e a sombra da fumaça..."
Com quarenta anos
conseguiu terminar o curso de magistério! Mérito e glória dela! Sorte a nossa,
pois passamos a ter uma mãe culta, além de todas as outras qualidades que já
tinha. Assim nossa vida foi mudando lentamente.
Não sei
bem como as coisas aconteciam quando éramos pequenos, onde mãe buscava forças,
alimentos, tempo e vontade de tocar em frente. O certo era que sempre vencíamos
as dificuldades, nos enroscávamos uns aos outros e esperávamos ser sacudidos
por aquela mulher de vinte mãos.
A música sempre
teve o poder de tornar o tempo sem hora ou lugar, como dizia Mariza, uma filha
do coração das muitas que teve. "... Ela cantava o ontem com gosto das manhãs
frescas e perfumadas, seus cabelos brancos, penugem de um sabiá teimoso. A
teimosia dos que adorava viver... Seu canto era um gorjeio maduro e solitário.
Ela não tinha tempo, não tinha horário, não tinha limite, era luz que não se
acabava... Mesmo quando soprava o vento. Era chuva que desabava e tinha veludo
escondido na pele enrugada! Era água pura, ar puro, era beijo na cabeça dos
filhos que chegavam buscando mel que era sempre farto!"
Aos oitenta anos
começou a viver as primeiras orgias noturnas... Fazia parte de um grupo de
amigos que se reunia uma vez por mês para ouvir e fazer uma boa música, curtir
um bom papo e saborear uma boa comida! Foram seus melhores momentos aqueles!
Ela cantava sem nenhum constrangimento, pelo simples prazer de cantar e de
fazer os outros felizes trazendo a música pungente que conheceu em outra época.
Era música doída, dolente como a vida que se vivia.
Nossa Aurora foi tema de
músicas da Casa de Bamba. Era assim que ela cantava feito Chiquinha Gonzaga
"... ela partiu me abandonou assim... oh lua branca por quem és tens dó de
mim..."
Aurora era agradavelmente gordinha e macia! Seus olhos eram de um cinza pálido
com pontinhos marrons que deixavam a gente meio sem jeito, pois nunca se sabia
bem o que eles escondiam. Lembro da voz dela, da presença, a fisionomia...
Sempre teve a mesma idade. Sempre pensei que ia morrer menina.
Gostava
de vê-la sentada ao pé do túmulo de nossos mortos. Rezava e depois ficava um
tempão fazendo companhia a eles.
Vivia com a casa cheia de
amigos e sempre com hóspedes que ela cuidava como ninguém.
As rosas amarelas sempre
tinham endereço certo quando morávamos longe. Eram descritas em cartas com
todas as minúcias. Cor exata... Perfume... .
Tamanho... Porte. As imagens ficavam gravadas na retina e
nos olhos da imaginação que ainda hoje me sirvo delas.
Ah como elas sabiam
plantar! Os dedos gordinhos estavam sempre sujos de terra. Eram dedos verdes!
Cada filho e
cada neto com seu canteiro preferido.
Sentada
no colo dela com suas mãos sobre meus cabelos ela conseguia me devolver
para mim mesma.
Mãos
com o poder de curar qualquer dor sem uma palavra! Tão gordinhas! Fofinhas como pão feito em
casa. Mãos de costurar, de transformar o velho no novo. Mãos
de fazer crochê. Mãos de carinho. Também batiam claras,
manteiga e tudo o mais. A roupa passada parecia nunca ter sido
usada.Sabia cantar,fazer sabão, ambrosia e também carinhos quentes.
Quando novas, aquelas mãos escreviam com perfeição letras harmoniosas e desenhadas formando palavras carregadas de significado.. Foram as mesmas mãos que em cima das minhas me apresentaram o mundo das letras e depois o das palavras sempre intensas.. As mesmas mãos também ajudaram as mãos de minha filha no caminho do ler e escrever.
Quando novas, aquelas mãos escreviam com perfeição letras harmoniosas e desenhadas formando palavras carregadas de significado.. Foram as mesmas mãos que em cima das minhas me apresentaram o mundo das letras e depois o das palavras sempre intensas.. As mesmas mãos também ajudaram as mãos de minha filha no caminho do ler e escrever.
Quando suas mãos descansavam assim cruzadas no colo fofo, os
dedos polegares faziam um movimento de ir e vir em círculos... Penso que era
a forma que ela encontrava pra guardar a ansiedade de tantas coisas
sonhadas e ainda não feitas.
Ao deixar este mundo, aquelas mesmas
mãos que eu tão bem conhecia, inertes, cruzadas sobre o peito,
mais uma vez me diziam de importância de nossos atos
silenciosos e caridosos,pois ao longo dos anos que viveu no
mesmo bairro deixou marcas lindas na vidas das
pessoas. Muitas delas, só tomei conhecimento quando as via, anônimas e
silenciosas prestando uma ultima homenagem. Algumas sentiam
necessidade de me dizer o quanto eram reconhecidas pelo conforto material e
espiritual recebidos. Foi então quando entendi a importância da máxima “Não
saiba a tua mão esquerda o que a direita faz”
Um dia ela partiu... Sua
alma como um passarinho foi pousando de galho em galho em direção ao céu... E é
de lá que me cuida. Sei também que hoje ela cuida dos jardins do segundo
andar como gostava de dizer. Esteve sempre se preparando pra viver no paraíso e
tenho certeza que a morte não a enganou porque a vida foi além dela.
Partiu deixando muitas Auroras pelo caminho..
. Somente
depois de ter andado por esse mundo de tantas casas é que pude reconhecer a
beleza da casa e das mãos de minha mãe.
Agora, com tintas da palavra, transformo-a
de simples pessoa de carne e osso que foi em personagem novamente e uso mais
uma vez suas ferramentas para a construção de minha vida,do meu chão,
no bom e no menos bom, no bastante e no pouco, no ganho e no perdido, naquilo
que é defeito em mim, mas também naquilo que é qualidade e, com certeza, essas
ferramentas posso usá-las para me tornar cada dia uma mãe e avó melhor e mais feliz.

Amorosamente escrito esse texto, fico umedecida feito a terra que ela plantava seus verdes. Amar a Aurora foi e é um carinho em minha alma. Recordo de sua divertida sabedoria rumo a simplicidade: "Gosto de comer coisas molinhas. Oitenta e poucos anos mastigando me cansou."
ResponderExcluirLindo, Rê. A Aurora está em você.
ResponderExcluirFeliz dia das Mães!
Beijo grande.